quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Homenagem a Fátima Freitas




A Pequena Endiabrada 

Irmã Fátima, perdoe-me. Sempre fui pecador. Desses incorrigíveis. Acredito, cara irmã, que ao longo deste relato serei ou não perdoado. Se não me perdoar, paciência. Bem que tentei: será esta a minha resposta. Por isso, logo no começo, antecipei-me. Foi estratégico. Pelo menos, assim, como pobre pecador, sempre existe desculpas a serem dadas. Se soubesse onde está agora, com certeza enviaria uma carta. Sim. Uma carta. Nada dessas tecnologias novas. 
Sei que não é endiabrada. Sabe a que me refiro. No entanto, para fazer o que faz até hoje, é preciso uma coragem dos diabos.
Irmã Fátima é uma freira da Irmandade das Josefinas, vinda da Paraíba há mais de dez anos. Desse total, cinco à frente da Pastoral da Criança em Manoel Urbano, a margem esquerda do Rio Purus, no Acre.
É daquelas poucas pessoas que raramente encontramos. Daquelas que, pela simplicidade, humildade e força, permanecem escondidas. Quietas. E, quando abrem os braços, parece abarcar o mundo.
Mas não se enganem. Na expressão simples, como uma grande árvore da Amazônia, raízes bem constituídas e troco majestoso, ela costuma fincar sua força em tudo que faz. 
Pequena na estatura, - não chega a alcançar um metro e meio de altura -. Estrutura óssea, rosto e expressões caricatas de uma criança.
Irmã Fátima busca sempre alinhar a vida e a opção religiosa, de um casamento com Cristo. Desde cedo, a idade de sua escolha me é desconhecida, estabeleceu como compromisso social a luta pelos mais fracos e oprimidos. Só Deus para salvar os pobres. Aqui em baixo, o negócio está cada vez pior.
Ela, para representar a aliança com a pobreza e com Deus, usa no dedo anelar direito aliança de coco de tucumã. Símbolo de sua espiritualidade.
O tucumã é fruto de uma palmeira da mata amazônica, muito apreciado por todos. Em Manaus ele é usado com frequência. Comem-no com tapioca, em sanduíches, in natura. Comem-no de qualquer jeito. Só não com casca. Se os nutricionistas e médicos sempre dizem que a casca faz muito bem à saúde, no caso do tucumã, seria uma tragédia. Entupimento certo. Algumas coisas, mesmo boas, podem ser danosas, mortais. Quando não, um sério problema intestinal.
Perdoe-me as brincadeiras, Irmã Fátima. Como disse, sou um pecador. Como quase todo pecador, brinco de brincar com os desígnios de Deus.
Irmã, Deus me entende. Afinal, qual homem para saber as verdadeiras intenções de Deus?
Irmã Fátima mostra que o amor, longe de ser um sentimento mítico-romântico, é a contínua luta entre o pequeno e o grande. Espinhos, assim como do tucumanzeiro, sempre à amostra. Duros. Implacáveis. 
Lidar com pobres todos os dias, é sempre árduo. Tarefa espinhosa. Como foi, naquele dia, minha visão inesquecível, quando conheci a Sra. 
No espaço onde trabalhava parte do dia, na Pastoral da Criança, pude ver, no centro do salão, logo ao chegar à entrada, colchões cobertos com finos e limpos lençóis. Para mim, sinônimo de zelo e dedicação; distribuídos de modo circular.
As famílias chegavam, aos poucos. Colocando, em seguida, seus filhos nos colchões. Outras permaneciam com os filhos nos braços. Mesmo depois de uma longa caminhada com eles nos braços, por não terem carro pessoal nem transporte público adaptado que os trouxesse até o local.
Ao entrar, Chica, uma adulta com Síndrome de Down, a “responsável pela recepção”, já estava lá; vagando de um lugar ao outro, dançante. Sorridente. Serelepe.
Todos que entravam no salão ela abraçava, cheirava, fazia carícias no cabelo, beijava no rosto e brincava, num certo misto de sarcasmo e ironia. Em algumas pessoas ela mexia e desalinhava as madeixas, outras ela coçava a barba, fitando-as nos olhos e balbuciando palavras, às vezes, irreconhecíveis.  
Na face de cada pessoa que chegava um estigma, certo peso insuportável de ser ainda carregado. Uma emanação de constante dor e luto perpétuos. Afinal, quando de uma gravidez, raramente paramos para pensar se o nosso filho ou filha nascerá com alguma doença genética ou, com o tempo, adquirirá alguma. Esse era o pensamento que me assolava, ao imaginar o que elas pensavam e sentiam. Nos olhos dela, desolação. Descreça. Só Deus para minimizar aquelas dores. E a força endiabrada daquela pequena irmã, ali, era um contraponto.
Um garoto que não era portador de deficiência, assustado com os gritos, grunhidos e choros das crianças, começou a chorar. Talvez tenha sido o primeiro contato dele com crianças, adolescentes e adultos portadores de deficiência. Como se aquelas crianças, algumas na idade dele, sete ou oito anos, não pertencessem ao mundo dela, com acesso livre a brinquedos, a brincadeiras, jogos de futebol, andar de bicicleta, empinar pipa...Quem mais se aproximava dele, quanto à liberdade de locomoção, era a Chica. Mesmo sendo uma adulta.
Chica era a única com Síndrome de Down. Havia crianças e adolescentes com cefalexia, hidrocefalia e paralisia infantil. Além de pais com uma calma estarrecedora e penetrante, como lâminas bem afiadas.  A mim, aquela paciência me atingia como um punhal.
Quietos, todos esperavam pacientemente. Irmão Fátima, sempre com sorriso no rosto, se aproximava de algumas pessoas, com voz mansa, para tecer um ou outro comentário breve. Para tentar lhes dar um pouco de luz esperançosa. Como num canto sacro, Irmã Fátima as acalmava.
O momento era precioso. Irmã Fátima não podia perder tempo. Com certeza ela sabia que, muito possivelmente, não teria oportunidade igual. Logo de início, quando começou o discurso, disse:
- Há mais de dois anos eu tento fazer uma reunião com as autoridades locais e não conseguia.
A fala foi interrompida pelo tilintar de seu celular. Com gentileza e discrição, despediu-se do contato, reiniciando os motivos e objetivos daquela convocação.
O objetivo, disse a Irmã Fátima, “era tentar mobilizar e sensibilizar as autoridades para não mais as pessoas com deficiência serem esquecidas, em suas casas, como se elas não existissem”. 
Com propriedade de quem sabe por onde caminha e o que presencia e sente todos os dias, a irmã disse com precisão cirúrgica a quantidade de pessoas com deficiência no município de Manoel Urbano:
- Existem trinta e cinco pessoas com deficiência.
Surpreso com o número baixo, considerei haver mais. Fazia eu anotações em minha agenda e conjecturava hipóteses sobre esse número mentalmente. Nada de matemática avançada. Nenhuma teoria nova quantitativa sobre a explicação universal de certos movimentos e causas sociais. Cálculos simples. Como num paquímetro, a tentativa de ser exato.
Depois de falar, a irmã deixou espaço aberto para todos se apresentarem.
Todos mostraram apoiar a decisão da Irmã. Alguns, com discursos mais rebuscados e sofisticados. Outros, menos. Mesmo que fervorosos.
Irmã, quantos problemas: falta de remédios; fraldas geriátricas, pelo fato de as pessoas com deficiência não conseguirem ter controle dos esfintecteres, em função da debilidade orgânica dos músculos e esqueleto; falta de transporte especializado para deslocamento, quando do agendamento de consultas em Rio Branco, ou mesmo para irem até a Pastoral da Criança do município; falta de controle e acompanhamento dos Agentes Comunitários de Saúde, ACS; a ausência de uma fisioterapeuta no município, que ainda não foi contratada; o uso inadequado do Programa para Pessoas com Deficiência, PPD; e, a falta de escrita e envio de um projeto específico para Curitiba, para a coordenação geral da Pastoral da Criança, para melhorar o atendimento, com equipamento e tecnologia adequadas.
- O projeto, se tivesse sido encaminhado a tempo, subsidiaria a implantação de uma Associação de Pais de Crianças Especiais, APAE. Disse a Irmã, na tentativa, quem sabe, de tocar aqueles corações já endurecidos pela máquina estatal, pela enxurrada de papeis e mais papeis, cinismos, ironias, sacarmos e mentiras e mais mentiras. Como mentir é fácil. Os mentirosos, de tão hábeis, tornam suas mentiras verdadeiras. Pior, além deles, vários outros acreditam.
- Com uma PAE no município, disse a Irmã Fátima, “ficaria mais fácil captar recursos para as pessoas com deficiência”.
- Não só isso. Continuou.
- Com uma PAE, as pessoas com deficiência não seriam mais desassistidas. Muitas delas poderiam, com um trabalho sistemático e com qualidade, ter o mínimo de autonomia possível. Poderiam caminhar, mesmo com dificuldade. Nesse momento, ela chamou ao centro do salão uma criança sorridente que passara por atendimento fonoaudiológico e fisioterapêutico breve, no Hospital Sara Kubtsheck, em Brasília.
“Vai”. Disse o pai, orgulhoso.
Cambaleante, mas com as próprias pernas, sem o auxílio dos pais, pois cada vez mais abandona as muletas, aproximou-se da irmã e abraçou-a. A irmã, felicitada, mostrando o exemplo, ali, de que é possível, sim, a recuperação de movimentos mínimos em alguns casos de paralisia infantil ou outras doenças, começou a fazer um resumo da história da criança.
Terminada a síntese historiográfica da criança, os discursos recomeçaram. Na ordem, quem primeiro falou foi o assessor do prefeito, depois um dos vereadores, a primeira dama e secretária de assistência social, a assistente social, a secretária municipal de saúde.
Eu fui o último. Queria ouvir com exatidão. Sem perder detalhes.
Em todas as falas, a antiga coordenadora da Pastoral, engasgada com tantos descontentamentos e lutas vãs, interrompia os outros.
Ao final certos encaminhamentos foram feitos: a prefeitura assinaria um contrato com uma clínica particular, no município, para atender as pessoas com deficiência; realizar uma reunião, nos dias vinte e quanto e vinte de maio, com o secretário estadual de Assistência Social, Trabalho e Cidadania, para tentarem conseguir um transporte adaptado, elaborar o projeto e encaminhá-lo para Curitiba; fazer o georreferenciamento da Pastoral da Criança, para tentar conseguir verba para a ampliação e melhoramento da instituição.
Apesar de que vi e ouvi, fiquei com a sensação de que tudo, mais uma vez, demoraria para acontecer. Só a irmã Fátima, com sua fé “inabalável”, e sua dedicação endiabrada, continuaria acreditando ser possível reverter tal situação. Enquanto nada de novo acontece, ela, a irmã, e outras colaboradoras da pastoral continuariam a realizar pequenas e milagrosas ginastiquinhas nas crianças, adolescentes e adultos com deficiência para elas não atrofiarem ainda mais seus músculos, movimentos e a própria vida.
Ao terminar sua lida, Irmão Fátima, a pequena endiabrada, iria para casa. É provável, com sua fé, que ela continue a acreditar mudar a realidade.
Se eu a encontrasse, fiquei sabendo que foi embora do município, diria:
- A senhora, Irmã Fátima, poderia encontrar em suas andanças o poeta Carpinejar. Diga a ele, Irmã, se o encontrar, com toda a graça que a senhora tem, que a senhora também “Não conhece - mesmo dizendo o contrário - nenhum sonho humilde, e que seu Amor é também ambição”.
Sua ambição, Irmã, foi para bem longe. Alegres aqueles e aquelas que estão sentindo sua presença agora. Continue endiabrada, Irmã.


Kissinger C. De Barros
Manoel Urbano, março de 2015