quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Partlha de vida - Missão Haiti

 



Estou no Haiti. Capital Porto Príncipe.

Atualmente faço parte da Comunidade Missionária Intercongregacional de Nazaré que se encontra em Missão no Haiti desde 2010, quando, por ocasião do grande terremoto que deixou a capital Porto Príncipe em ruínas, todo o mundo se
mobilizou em ajuda humanitária para ajudar as pessoas e reconstruir o país.

Também a Igreja do Brasil em parceria com a CRB Nacional, sensibilizada com o 
sofrimento humano diante da tragédia, prontamente se colocou a disposição para
ajudar.

A Comunidade Intercongregacional está no país até hoje, levando a frente uma
Missão em nome da Igreja do Brasil, através de um Projeto de Solidariedade que
atende crianças menores em situação de vulnerabilidade alimentar, crianças em
idade escolar através de aulas de reforço e alimentação, idosos, adolescentes e
mulheres, com oficinas de artesanato e cursos variados como costura, bordado,
crochê, cozinha, etc.

Mas… esta Missão encontra-se ameaçada no momento.

A crise social, política, econômica que assola o país há anos, agravou-se nos
últimos meses e a situação de segurança pública se deteriorou nos últimos dias e
não há perspectiva de melhoria a curto e médio prazo. Prova desta deterioração é
que, recentemente, o bairro onde as Missionárias moram, foi invadido pelas
gangues que entraram no bairro para dele tomar posse. E, aterrorizando a
população, foram invadindo as casas, inclusive a nossa, onde entraram dois
grupos de homens fortemente armados que nos renderam e levaram tudo: além
de dinheiro (na moeda local e dólar), levaram também computadores, caixas de
som, baterias e tudo que fosse do interesse deles. Sempre com armas apontadas
e proferindo ameaças de sequestro e morte, enquanto exigiam dinheiro, ouro e
dólar americano. Isso aconteceu duas vezes no mesmo dia (21/01) a tarde e à
noite, deixando-nos desestruturadas e apavoradas.

Na manhã do dia seguinte ainda muito cedo, com ajuda dos vizinhos e das
voluntárias que ajudam no Projeto, conseguimos fugir, sair do bairro, pois como
diziam eles que “corríamos risco” e não podíamos ficar, já que os bandidos
continuavam no bairro aterrorizando a população. Muitas famílias também
conseguiram fugir, abandonando suas casas e seus poucos bens, para se alojarem
em casas de parentes ou amigos num lugar que fosse mais seguro.
Nós fomos acolhidas pela Comunidade das Irmãs Apóstolas do Sagrado Coração
de Jesus, onde nos encontramos em segurança no momento, aguardando o
momento de voltar para o Brasil. E a quem agradecemos de coração. Quanto ao
futuro da Missão aqui, faz-se necessário uma análise e um discernimento, que
será feito posteriormente.

No momento, nosso sentimento é de gratidão a Deus que nos poupou a vida e
integridade física e sempre esteve conosco nos momentos de maior aflição, nos
dando força, equilíbrio e serenidade. Gratidão aos nossos vizinhos e voluntárias
do Projeto pelo cuidado constante e preocupação conosco, à CRB Nacional e toda
a Equipe da REMIS (Rede Missionária Intercongregacional Solidária), que tão
prontamente cuidaram de nós, a Bernardete e cada uma das Irmãs que me
acompanhou e se manteve em comunhão pela oração; enfim, gratidão a tantas
pessoas, Religiosas, Religiosos, familiares, amigas e amigos de perto ou de longe
que manifestaram sua sintonia, solidariedade e orações.

Continuemos unidas em prece por este povo machucado que tanto sofre e por
esta nação, para que encontre caminhos de luz e assim possa conduzir os seus
cidadãos a uma terra sem males, uma “terra onde corre leite e mel” (Ex.3,8).


quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

O dia em que passei Martissant

 


Não tenho registro fotográfico, nem pode ter. É um lugar sinistro, "fantasma", casas abandonadas, lixo por todo canto, lama... não se vê um vivente, apenas alguns da facção cobrando pedágio dos carros que passam para o interior, região sul.

Aí é sempre perigoso, não se pode facilitar. Mas nestas festas de fim de ano, eles deram uma trégua, um momento de paz e eu aproveitei, arrisquei e fui passar o Natal em Fontamara, com meu amigo, o haitiano Pe. Fresnel Bellune, amigo e companheiro de Missão desde os tempos do Acre.