quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Missão no Rio Purus


Na saída de casa: eu e Pe. Sá

Como é bom o nosso Deus!

Depois de algum tempo sem nada escrever no meu Blog, partilho minha Missão no Alto Rio Purus, visitando a partilhando a vida das Comunidades Ribeirinhas. Há muito pensava em fazer essa visita, mas não havia tempo. Até que o tempo se encarregou e o tempo deu tempo ao tempo. 
Foram momentos e experiências ímpar. Venha comigo... me acompanhe...

Mês Missionário. Mês do Rosário. Mês abençoado. 
Tempo mais que oportuno para fazer essa Missão. 
E como Deus prepara tudo direitinho...

Foi exatamente do dia 07 de outubro, terça-feira, Festa de Nossa Senhora do Rosário (Nain Feto Rosario nian), padroeira de Laleia-Timor Leste, minha primeira Missão além-fronteiras. 
Oito horas da manhã de um lindo dia de sol, no porto de Manoel Urbano. Barco atracado à espera dos seus ilustres passageiros: eu, Pe. Sá, o Thiago (um jovem que acompanha o Padre) e nossos motoristas: o Neguim, o William e o Tiel. Tudo e todos embarcados, tudo pronto, é hora de sair. 

            Como Deus é bom e Sua Mãe não se poupa em bondade. Experimentei essa Bondade de Deus ainda antes da viagem. Foi assim: Eu estava decidida a fazer essa viagem até Santa Rosa do Purus (fronteira com o Peru), sem barco próprio (falta recursos), pedindo passagem a um e outro ou as próprias comunidades mandavam me deixar na próxima... Foi então que, na véspera de viajar, me bate à porta o Pe. Sá que, vindo de Fortaleza-Ce, está de viagem para Santa Rosa. Justamente o que eu queria. Só agradeci a Deus por tanta bondade.

Então fomos . E lá vamos nós viajando Rio acima naquela pequenina embarcação, nem banheiro tinha... E foi essa a nossa casa por 15 dias! Louvado seja Deus!! E eu estava feliz por realizar meu sonho.
Nossa casa flutuante
William, Pe. Sá, Thiago, Neguim e eu no Porto em MU
Família do Neguim em sua colônia na Samaúma
 No primeiro dia, viajamos o dia inteiro e chegamos já com a noite na Colônia Pernambuco, onde dormimos, os homens no barco e eu "em terra" (esta expressão pra dizer que eu dormi na casa dos moradores), numa família que eu conheço de muito tempo. Casa do Manoel. Conversamos um bocado, depois fomos todos dormir. Pela 5:30h da manhã já estávamos viajando de novo. No segundo dia paramos em algumas aldeias indígenas, visitamos, conversamos e deixamos um pouco de "heterô" (roupas) usadas que o Padre havia trazido para fazer doação. Dormimos na aldeia indígena Kulina Santo Amaro. Aí foi uma festa com os sacos de roupas que foram entregues. E só chegamos no Cruzeiro ao terceiro dia. Enquanto subimos o Rio vamos parando numa e outra colônia para visitar as famílias e ver como estão.
Visita a aldeia indígena Sta. Júlia
Criança Indígena Madirra (Kulina)

Mulher Indígena transportando muda de bananeira
Festa da distribuição da roupa na aldeia Sto. Amaro

Criança indígena recém-nascida
Chegamos no Cruzeiro, Comunidade Nossa Senhora Aparecida, Casa do Laércio e da Neusa. O povo estava esperando o Padre, inclusive os dois Padres: O Pe. Sá e o Pe. Valdemir de Santa Rosa, pois aqui já é Paróquia de Santa Rosa do Purus. O Pe. Valdemir não conseguiu chegar pois aconteceu um imprevisto com a sua embarcação. Mesmo assim, com sua ordem, fizemos alguns batizados e inauguramos a Igrejinha recém-construída. E foi aquela festa!! 

É bonito ver o ENCONTRO das pessoas, compadres e comadres, amigos e amigas, afilhados, conhecidos de perto e de longe que não se vêem faz tempo... crianças que se juntam e brincam naquele corre-corre e algazarra infantil, jovens e adolescentes que se entreolham numa paquera inocente, ou não! tudo e todos vivendo numa harmonia e entreajuda. Vizinhas e amigas que se ajudam nos afazeres da casa, a carregar água da fonte para encher as vasilhas e potes e não faltar água na casa. Os homens nos últimos preparativos da capela e na carne para o churrasco. Tudo pronto! Uma realidade que não se vê no dia-a-dia, principalmente na cidade.
Festa na Comunidade Nossa Sra. Aparecida - Cruzeiro

Preparando o fogo para o churrasco
Distribuição e escolha das roupas
Meu afilhado Tiago, hoje com 15 anos
O dia em que batizei o Tiago, 15 anos atrás
Missa solene de Nossa Sra. Aparecida
Preparando a festa da Padroeira com a Leitura Orante da Palavra de Deus

Festejando o dia da Criança com bombons Garoto
Nesse Domingo, dia da Mãe Aparecida foi um dia lindo. Celebramos com muita solenidade,  um "coral" ensaiado, muitas flores e a celebração da Eucaristia, dos Batizados e a Bênção solene da Capelinha dedicada à Mãe. Todos felizes e empolgados com a Igreja nova, faltando ainda alguns acabamentos.

Momento solene da Santa Missa
Hora do almoço
Foto oficial da Comunidade
Após a Missa e o almoço, saímos rumo a Santa Rosa. Nesta noite dormimos no porto da aldeia indígena Kaxinauá do Porto Alegre. Mais uma vez a escuridão da noite nos surpreendeu no meio do rio e tivemos de nos virar com a tocha da lanterna, preocupados com a "pausada" que há no meio do rio e é muito perigoso. Mas, graças a Deus e S. José, que nunca nos deixou de valer, nunca nos aconteceu nada de mal.

Paus no leito do Rio - Perigo!

De manhã cedo, já estávamos de novo no meio do grande Rio. O dia amanheceu frio e com muita cerração que era difícil a visibilidade para conduzir o barco. Mas os nossos heróis estavam atentos a tudo. E seguimos viagem, parando em alguns lugares para as necessidades básicas (o barco não tinha banheiro!) e algumas visitas. Estamos para chegar em Santa Rosa, mas a ansiedade era tão grande que parece que o rio esticou seus braços para demorar mais ainda a viagem. 
Mais uma vez, a noite caiu e nos surpreendeu dentro do rio e nada de ver as luzes da cidade acesa. Finalmente chegamos por volta das 19:00h em meio a escuridão. Fomos para a Casa Paroquial, onde o Pe. Valdemir nos acolheu com muita atenção. Aí fizemos algumas visitas a amigos e conhecidos, assim como os hermanos da fronteira do Peru e os Indígenas Jaminaua que moram na aldeia do Estirão, acima de Sta. Rosa.
Em Sta. Rosa, visita a casa das Irmãs (Ir. Percília SMR)
Pe. Valdemir (Pároco) e Pe. Sá (visita)
Almoço da casa de amigos
Visitando a fronteira e los hermanos peruanos

Aldeia Indígena Jaminawa do Estirão

Depois de um dia na cidade, nos despedimos e começamos nossa maratona de baixada. Depois de algumas paradas para visitas, chegamos de novo, a noite, no Cruzeiro na casa do Laércio e da Neuza. Desta vez foi só pra dormir. 

De manhã, após o café, nos reunimos na  areia da praia, ao lado do barco e fizemos uma oração, agradecemos a Deus os momentos que passamos juntos, as famílias que visitamos e pedimos uma boa viagem de volta, nos despedimos e embarcamos. 
Despedida na casa do Laércio e Neuza


Paramos ainda na Comunidade S. Francisco, na Colônia Balbino, para celebrar os sacramentos da Missa e Batizados, pois a Comunidade estava avisada e esperando o Padre. Então paramos e realmente, o povo estava aguardando.
Missa na Comunidade São Francisco - Balbino




Entrega dos Evangelhos e da
Colher-medida de Soro Caseiro da Pastoral da Criança
Depois das celebrações, o momento para a foto oficial da Comunidade, em seguida foi servido almoço e depois, descemos o barranco e seguimos viagem. 

Foto oficial da Comunidade - Balbino

Almoço
Viajamos o resto do dia inteiro e, mais uma vez, fomos surpreendidos pela noite. Paramos e pernoitamos no Oiapoque, abaixo da escola. Eu, a comadre Lourdes e sua filha Ana Cristina, que viajam conosco, subimos e fomos dormir "em terra". 

No dia seguinte, saímos cedo e cedo chegamos na Santa Cruz Velha, casa do Ribamar e da Mimosa, onde vou ficar. O Padre com o barco segue viagem e eu fico pra continuar a missão, agora nas comunidades da Paróquia de Manoel Urbano.

Aqui na Comunidade S. Francisco, fiquei o final de semana, acompanhei um evento que houve no sábado: torneio de futebol, distribuição de roupas usadas e brinquedos para as crianças. No Domingo, fomos celebrar na casa da D. Maria Salomão, uma senhora que está doente e não poderia vir para celebração, caso fôssemos celebrar na Escola. Estão reunimos o povo daqui e fomos para lá. 
Celebração na casa do Sr. Salomão

Na segunda feira, fui para o roçado com a Mimosa e o Ribamar, arrancar macaxeira para tirar goma e trazer pra casa. Foi uma experiência muito boa que me fez recordar o tempo em que  nós, Irmãs, aqui em MU, fazíamos nossa missão também assim no roçado junto com as mulheres. Além de fazer Missão, ainda ganhava o pão de cada dia. No roçado, colhíamos arroz, descascava macaxeira para fazer a farinha e, no tempo do verão, quando se formavam as praias, o povo plantava feijão e, no tempo da colheita, a gente ia ajudar colher para ganhar o nosso bocado.
No roçado, bebendo na fonte
Ribamar arrancando macaxeira
Nós descascando macaxeira para tirar goma

Lavando a massa para tirar a goma
(Pense numa coisa para dar trabalho!!)
 A tarde, fui na Escola visitar e falar aos jovens alunos do Ensino Médio. Mas esqueci de registrar o momento. Só lembrei depois, mas não houve mais tempo. Fui para casa e no final da tarde testemunhei um dos espetáculos mais belos que já vi: Daqui da varanda da casa, contemplo o por-do-sol, que é estupendo. Nele, contemplo e louvo o meu Criador nestas cores esparramadas pelo infinito. Obrigada, meu Senhor, meu Pai e Criador por todas as oportunidades, toda a vida vivida por ti, pelo teu Reino, pelo irmão. Sinto teu amor, por isso sou feliz!



No dia de baixar o dia amanheceu lindo. Antes de viajar, porém, fui na escola dar uma palavrinha para as crianças do Fundamental. Agora sim, lembrei de registrar.
Alunos no recreio
Alunos estudando

Desta Comunidade, o Ribamar foi me deixar na outra Comunidade S. Francisco, na Colônia Aracoã. Casa da minha outra comadre Matilde e compadre Antônio Guíta. Aí fiquei mais dois dias junto com a família e visitando outras famílias. A noite nos reuníamos para a oração. 
Visita a família do Zé Maria e da Preta
Na varação para visitar a Ercília

Filha da Ercília

Na casa da Sônia - sua netinha Verônica
Daqui peguei uma carona até a casa da Rita e daí, de carona no Transporte Escolar, chupando limão com as crianças, até a casa da Misse, no São João. Fiquei outros dois dias nessa Comunidade, até descer para Manoel Urbano, com eles, que estavam indo para votar no segundo turno das Eleições Presidenciais. 

De carona no transporte escolar com seu Marazona e as crianças


Aninha e Preto: netos da Misse


Enfim, em casa. Cheguei por volta das 15:00h do dia 25 de outubro, véspera do segundo turno das eleições presidenciais. Chegando, não havia ninguém, as Irmãs tinham viajado para Rio Branco a fim de cumprirem o seu dever de cidadãs brasileiras, nas urnas. 
A Missão é assim, essa itinerância toda, saí sozinha e cheguei sozinha. 
Deus seja louvado!  Também fui cumprir o meu dever.

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