Há muitos séculos, um crocodilo vivia num pântano. Este crocodilo sonhava crescer, ter mesmo um tamanho descomunal. Mas a verdade é que ele não só era pequeno, como vivia num espaço apertado. Tudo era estreito à sua volta, somente o sonho dele era grande.
O pântano é de ver. É o pior sítio para morar. Água parada, pouco funda, suja, abafada por margens esquisitas e indefinidas. Ainda por cima, sem abundância de alimento ao gosto de um crocodilo.
Por tudo isto, o crocodilo estava farto de viver naquele pântano, mas não tinha outra morada.
Ao longo do tempo, milhares de anos, o que ia valendo ao crocodilo era ele ser um grande conversador. Enquanto estava acordado, conversava, conversava… É que este crocodilo fazia perguntas a si mesmo e, depois, como se ele próprio fosse o outro, respondia.
De qualquer maneira, conversar assim, isoladamente, durante séculos, esgotava os assuntos. Por outro lado, o crocodilo começava já a passar fome. Por dois motivos: primeiro, porque naquele charco havia pouco peixe ou outra bicharada que lhe conviesse para refeição; segundo, porque, só muito ao largo, passava caça de categoria e tenra - cabritos, porquitos, cães…
Muitas vezes, exclamava para si próprio:
- Que grande maçada viver com tão pouco, e num sítio destes!
- Tem paciência, tem paciência, dizia a si próprio.
- Mas viver de paciência, ter paciência não é coisa que alimente um crocodilo, recalcitrava-se-lhe.
Naturalmente que tudo tem um limite. Incluindo a resistência à fome. E o crocodilo entrou a sentir uma fraqueza que lhe quebrava o ânimo e o definhava. Os seus olhos iam-se amortecendo e já quase não podia levantar a cabeça e abrir a boca.
- Tenho de sair deste lugar e procurar caça mais além…
Esforçou-se, galgou a margem e foi ganhando caminho através do lodo da areia. O sol estava a pino e aquecia a areia, transformando todo o chão em brasa. Não havia safa, o crocodilo perdia o resto das suas forças e ia ficar ali assado.
Foi nesta altura, que passou pelo sítio um rapazinho vivaz, que exprimia os seus pensamentos cantarolando.
- Que tens, Crocodilo, ah! Como tu estás? Tens as pernas partidas, caiu-lhe algo em cima?
- Não, não parti nada, estou completamente inteiro, mas, apesar de ser de pequeno corpo, há muito não agüento com meu próprio peso. Imagina que já não tenho forças para sair deste braseiro.
Respondeu o rapazinho:
- Se é só isso, posso ajudar-te. E, logo em seguida, deu uns passos, carregou o crocodilo e foi pô-lo à beira do pântano.
No que o rapazinho não reparava, era que, enquanto carregava o crocodilo, ele se animava a ponto de arregalar os olhos, abrir a boca e passar a língua pela serra dos seus dentes.
- Este Rapazinho deve ser mais saboroso do que tudo o que provei e vi em toda a minha vida. Imaginava-se lhe dar uma chicotada com a cauda para adormecê-lo e, depois, devorá-lo.
- Não sejas ingrato, diz-lhe o outro com quem ele conversava e que era ele mesmo.
- A fome tem os seus direitos.
- Isso é verdade, mas olha que trair um amigo é um ato indigno. E, este é o primeiro amigo que tens.
- Então, vou deixar-me ficar na mesma e morrer de fome?
- O rapazinho te fez o que é preciso, salvou-te. Agora, se quiseres sobreviver, trabalha e procura alimento.
- Isso é verdade…
E quando o rapazinho o pousou no chão molhado, o crocodilo sorriu, dançou com os olhos, sacudiu a cauda, e disse-lhe:
- Obrigado! És o primeiro amigo que encontro. Olha, não posso dar-te nada, mas se pouco mais conheces que este charco, aqui, tão à nossa vista, e se um dia quiseres passear por aí fora, atravessar o mar, vem ter comigo…
- Gostaria mesmo, porque o meu grande sonho é ver o que mais há por este mar afora.
- Sonho… falaste em sonho? Sabes, eu também sonho, arrematou o crocodilo.
Separaram-se, sem que o rapazinho sequer suspeitasse de que o crocodilo chegara a estar tentando a comê-lo. E, ainda bem.
Passados algum tempo, o rapazinho apareceu ao crocodilo. Já quase não o reconhecia. Via-o sem sinais das queimaduras, gordo, bem alimentado.
- Ouve, crocodilo, o meu sonho não parou e eu não agüento mais cá dentro.
- O prometido é prometido… Aquele meu sonho… Mas com tanta caça que tenho arranjado, quase me esquecia dele. Fizeste bem em vir lembrar-mo, rapazinho. Queres, agora mesmo, ir por esse mar afora?
- Isso, só isso, Crocodilo.
- Pois agora eu também. Vamos então.
Ficaram ambos contentes com o acordo. O rapazinho acomodou-se no dorso do Crocodilo, como se fosse numa canoa, e partiram para o alto mar.
Era tudo tão grande e tão lindo!
O mais surpreendente para os dois, era o próprio espaço, o tamanho do que se estendia à sua frente e para cima, uma coisa sem fim. Dia e noite, noite e dia, nunca pararam. Viam ilhas de todos os tamanhos, de onde as árvores e as montanhas lhes acenavam. E as nuvens também. Não sabiam se eram mais bonitos os dias ou as noites, se as ilhas ou se as estrelas.. . Caminharam, navegaram, sempre voltados para o sol, até o Crocodilo se cansar.
- Ouve-me, rapazinho , não posso mais! O meu sonho acabou…
- O meu não vai acabar.
Ainda o rapazinho não tinha dito a ultima palavra, o crocodilo aumentou, aumentou de tamanho, mas sem nunca perder a sua forma primitiva, e transformou-se numa ilha carregada de montes, de florestas e de rios.
É por isso que Timor tem a forma de Crocodilo.
Esta é uma das muitas lendas da cultura timorense.
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