| Descendo os barrancos do Rio Purus |
A TERRA INDIGENA ALTO RIO
PURUS, O HENE HUBEYA DOS HUNI KUĨ
A Terra Indígena Alto Purus
está localizada nos municípios de Manoel Urbano e Santa Rosa do Purus, habitada
pelos Kaxinawá que se autodenominam Huni Kuĩ e pelos Madirra. É uma terra
indígena com 263.129 ha e com aproximadamente 2.279 indígenas, sendo 1.411
Kaxinawá e 868 Madirra (AEPI, 2010). Na região de Santa Rosa do Purus também
tem os Jamináwa que estão reivindicando o reconhecimento da Terra Indígena
Estirão.
Atualmente na T.I. Alto Rio Purus
há 47 aldeias (Manoel Urbano e Santa Rosa do Purus), sendo 23 Kaxinawá, 23
Madirra e 01 Jaminawa, em 03 aldeias Kaxinawá e 01 Madirra não há escola, são
aldeias que foram criadas recentemente havendo uma sala de aula anexa a uma
escola próxima. Esta terra indígena está localizada em uma região de fronteira
com o Peru, tendo em seu entorno o Parque Estadual do Chandless, a T.I.
Jamináwa do rio Caeté, a Reserva Extrativista Cazumba-Iracema, assim como
antigos seringais hoje habitados por caboclos e ribeirinhos, e algumas fazendas
que estão localizadas ao longo do rio Purus entre os municípios de Manoel
Urbano e Santa Rosa do Purus.
Os Kaxinawá ou Huni Kuĩ, “gente verdadeira”, como
eles se autodenominam, constituem a maior população indígena do Acre, distribuídas
em 12 terras indígenas já reconhecidas nos vales do Alto Juruá e Alto Purus,
bem como na região do Peru a partir do rio Curanja, configurando-se um povo “trilíngue”
(Língua Materna, Espanhol e Português), convivendo com o fortalecimento de
suas tradições, sua rica cultura material, com a tecelagem, a
cerâmica, os kenês, e com as “imposições” da sociedade não-indígena que
mantém uma relação desfavorável de forças. Na TI. Alto Purus também estão os Madirra,
conhecidos também como Kulina, habitando aldeias localizadas ao longo
dos rios Juruá, Envira e Purus. Diferentemente dos Huni Kuĩ que são Pano, os
Madirra são da família linguística Arawá, tendo como principal característica
ou forma de defesa sociocultural, uma “rebeldia” que lhes são peculiar, vivendo
tempos futuros que não estão tão distantes do passado. Esta é a TI Alto Rio
Purus, localizada no rio Purus que os Huni Kui definem como “Hene Hubeya”,
“rio de águas barrentas”, trazendo consigo uma diversidade de cultura,
cultura dos ribeirinhos, dos caboclos, dos indígenas, cultura de negação, mas
também cultura de afirmação, sendo o CUXIURA para Gunter Kromer, definindo como
o Purus dos indígenas, um “paraíso perdido” para Euclides da Cunha e motivo de
inspiração para tantos outros que por ele passaram e passam até hoje. É o “Hene
Hubeya” dos piuns, que não são uns, são muitos, das mutucas, também das
carapanãs que nesta viagem não quis nos perturbar tanto, mas também o “Hene
Hubeya” das riquezas naturais, da castanha do Brasil, que tem até Sena Madureira,
mas já em Manoel Urbano não existe. Dos seringais e também do pôr do sol
maravilhoso, das belas noites de lua e céu estrelado, do rapé na beira do
barranco. Purus dos Paumari, dos Apurinã, dos Jamamadi, do Deni, dos Zuruaha,
dos Jarawa, mas também o Purus dos Madirra e dos Kaxinawá. Os Madirra afirmando
ser do Purus por sua escrita ou re-escrita, dizendo com “k” não, no Purus é com
“cc”, com “ph”não, mas com “pp” sim, subindo e descendo o rio, nos barrancos
das cidades vivendo em um “tempo” que ninguém entende, o “tempo dos Madirra”.
Também temos
os Huni Kui que com sua imponência e teimosia desafia os limites, as fronteiras
colocadas por nós, desfrutando de um “trilíngue embaraçoso”. Este é o Purus, o
“Hene Hubeya” do padre cearense que está em Santa Rosa do Purus e não entende
os caboclos e muito menos os indígenas, manifestando uma “ignorância” quando
questiona “porque estas pessoas comem
macaco”, mas celebra contente o resultado positivo da manifestação do
catolicismo popular na festa da padroeira da cidade. É o Purus de tempo
distante, de tempos presentes, de tempos diferentes.
(Texto de Charles Falcão - CEI-Acre)
(Texto de Charles Falcão - CEI-Acre)
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