quarta-feira, 10 de abril de 2013

Haiti: eles precisam de solidariedade, não de soldados!

 
 Caros amigos e amigas,
Acabo de chegar de uma viagem ao Haiti. Fui participar de um congresso do Movimento Camponês Haitiano e aproveitei para visitar várias regiões do país e os projetos que a Brigada da Via campesina/ALBA estamos desenvolvendo em solidariedade ao povo do Haiti.
Gostaria de começar minha carta comentando as características principais daquela nação. É um país do tamanho de Alagoas (27 mil Km2), todo ele montanhoso, como Minas Gerais, e com as montanhas totalmente devastadas; ou seja, sem cobertura vegetal, pois os camponeses ao longo de décadas tiveram que recorrer ao carvão como única fonte de energia e de renda. Toda alimentação do Haiti é preparada com carvão. Não há fogão a gás no país, com exceção dos bairros ricos de Porto Príncipe. O clima é semiárido em todo país. Chove apenas três meses por ano e depois aquela ‘seca nordestina’… E o povão: são dez milhões de pessoas nesse pequeno território superpovoado, com 95% de afrodescendentes e 5% de mulatos.
Eles são os herdeiros da primeira grande revolução social da América Latina quando, em 1804, se rebelaram contra os colonizadores franceses que os exploravam como escravos, e os condenavam a ter apenas uma média de 35 anos de vida. Expulsaram todos os colonizadores, eliminaram a escravidão e distribuíram as terras. E como sabiam que os colonizadores poderiam voltar ainda mais armados, subiram as montanhas, onde estão até hoje.
Os colonizadores voltaram, mas não eram mais franceses; vieram os capitalistas dos Estados Unidos que ocuparam o país durante as primeiras décadas do século XX. E quando saíram, deixaram a ditadura Duvalier pró-americana que terrorizou a população de 1957 a 1986. Seguiram-se governos provisórios.
Em 1990, elegeram o padre Aristides, da Teologia da Libertação. Não adiantou; os americanos o derrubaram e levaram para Washington, para dar-lhe aulas de neoliberalismo. Voltou domesticado para cumprir outro mandato.
Depois, elegeram o Presidente René Préval, que conseguiu cumprir o mandato, mas sem nenhuma mudança democrática. E agora elegeram governo títere dos americanos, que gastou 25 milhões de dólares na campanha eleitoral. Todos sabem no Haiti que o povo não o elegeu.
Deveria haver eleições para o Parlamento, que o mandato expirou há mais de seis meses. Mas ninguém fala nisso. Por tanto, não há mais Parlamento legalmente constituído, embora funcione. Na prática, o poder real é exercido pelas tropas das Nações Unidas, chamadas de Minustah!
Portanto, apesar de liberto da escravidão, o povo haitiano viveu poucos anos de democracia, mesmo que burguesa.
O povo vive em pobreza extrema de comida e bens materiais que se agravou com o terremoto de janeiro de 2010, que matou milhares de pessoas e destruiu praticamente toda a cidade de Porto Príncipe. Mas, é um povo que se mantém com dignidade e altivez, unido pela cultura, pelo idioma crioulo, que só eles falam no mundo, e pelo Vudu (equivalente ao nosso candomblé), praticado por quase toda população, embora mantenham um sincretismo religioso no estilo: aos domingos a missa e nas quintas-feiras o terreiro.
Nas regiões rurais não há escolas. 70% da população vivem no meio rural. O analfabetismo atinge 65% da população. Não há energia elétrica no interior; apenas em Porto Príncipe. Há apenas três rodovias nacionais asfaltadas. E não há água potável. Todo mundo precisa comprar água potável a preços internacionais.
No ano passado, pela primeira vez em sua história, houve uma epidemia de cólera que matou centenas de pessoas. A doença medieval foi trazida pelas tropas do Nepal, que jogavam seu esgoto no principal rio do país. Algum tribunal internacional se anima a processar as Nações Unidas por essas mortes?
Mais de 65% de todos os alimentos são importados ou chegam como doação, que são apropriados por uma burguesia comercial negra, que explora a população.
As famílias que ainda conseguem ter algum recurso para comprar os produtos que vêm da vizinha República Dominicana recebem ajuda de parentes que trabalham nos Estados Unidos.
Chávez salvou o povo do Haiti do caos ao fornecer petróleo através de Petrocaribe e propôs que o governo local aplicasse os recursos da receita em projetos sociais. O combustível é vendido nos postos; porém, o governo nunca explicou ao povo onde está colocando essa renda.
Num cenário desses não é difícil imaginar quando virão as próximas revoltas populares. Mas, não se assustem, lá estão 12 mil soldados de muitos países do mundo coordenados pelo Exército brasileiro, com o timbre das Nações Unidas, para conter possíveis revoltas. Desfilam em comboios fortemente armados, apenas para dizer ao povo: Não se esqueçam, estamos aqui para manter a ordem! A ordem da pobreza e da nova escravidão. Lá não há guerra, nem violência (os índices de homicídios são os mais baixos da América Latina); os solados estão lá como policiais apenas.
Perguntei a soldados brasileiros porque estavam lá, pois nem sequer dominam o crioulo, para se comunicar com a população. A única resposta que obtive foi de que se saírem, entrarão os americanos, que são muito mais violentos!
O povo do Haiti não precisa de soldados armados. O povo do Haiti precisa de solidariedade para desenvolver as forças produtivas de seu território e produzir os bens que precisam para sair das imensas necessidades que padecem.
O povo do Haiti precisa de apoio para ter energia elétrica, para ter uma rede de gás de cozinha e evitar o desmatamento. Precisa de uma rede de água potável e de escolas em todos os níveis, em todos os povoados. Precisam de sementes e de ferramentas. O resto eles sabem muito bem como fazer. Estão lá desde 1804, como povo liberto, sobrevivendo e se multiplicando apesar de tantos espoliadores estrangeiros.
 Felizmente, há outras visões no relacionamento com o povo do Haiti. O governo da Bahia enviou cisternas para armazenar água da chuva, e o povo de lá é muito grato. A Petrobras nos ajudou a trazer 77 jovens camponeses para estudar agroecologia no Brasil. A igreja católica de Minas Gerais fez uma coleta especial em todas as paróquias que agora financia projetos de desenvolvimento agrícola por lá, desde hortas, caprinocultura, criação de galinhas e multiplicação de sementes.
E os movimentos sociais da Via campesina Brasil, com os poucos recursos que temos, mantemos uma brigada permanente de jovens voluntários há mais de 6 anos, no Haiti, que estão desenvolvendo projetos de agricultura, de cisternas e de educação.
Anotem, o povo do Haiti tem raiva das tropas da Minustah. Se as Nações Unidas quisessem enviar soldados, poderiam ter seguido o exemplo do Equador e da Venezuela: seus soldados não andam armados, e estão construindo casas, estradas e armazéns. Ou seguir o exemplo de Cuba, que mantém por lá mais de 5 mil médicos voluntários; aliás, é o único serviço público de saúde que existe no país, realizado por esses médicos humanistas, que dão exemplo da prática do socialismo.
Acho que nossa obrigação, como irmãos do povo do Haiti, é seguir protestando e pedindo que as tropas se retirem do Haiti; como não desejaríamos que estivessem no Brasil ou em qualquer país do mundo. E seguir apoiando com projetos de desenvolvimento econômico e social.
[Fonte:América Latina en Movimiento].

Nenhum comentário:

Postar um comentário