domingo, 30 de março de 2014

Cuidar da Mãe Terra e amar todos os seres


O amor é a força maior existente no universo, nos seres vivos e nos humanos. Porque o amor é uma força de atração, de união e de transformação. Já o antigo mito grego o formulava com elegância: “Eros, o deus do amor, ergueu-se para criar a Terra. Antes, tudo era silêncio, desprovido e imóvel. Agora tudo é vida, alegria, movimento”. O amor é a expressão mais alta da vida que sempre irradia e pede cuidado, porque sem cuidado ela definha, adoece e morre.

Humberto Maturana, chileno, um dos expoentas maiores da biologia contemporânea, mostrou em seus estudos sobre a autopoiesis, vale dizer, sobre a auto-orgnização da matéria da qual resulta a vida, como o amor surge de dentro do processo evolucionário. Na natureza, afirma Maturana, se verificam dois tipos de conexões (ele chama de acoplamentos) dos seres com o meio e entre si: uma necessária, ligado à própria subsistência e outro espontânea, vinculado a relações gratuitas, por afinidades eletivas e por puro prazer, no fluir do próprio viver.

Quando esta última ocorre, mesmo em estágios primitivos da evolução há bilhões de anos, ai surge a primeira manifestação do amor como fenômeno cósmico e biológico. Na medida em que o universo se inflaciona e se complexifica, essa conexão espontânea e amorosa tende a incrementar-se. No nivel humano, ganha força e se torna o móvel principal das ações humanas.
O amor se orienta sempre pelo outro. Significa uma aventura abraâmica, a de deixar a sua própria realidade e ir ao encontro do diferente e estabelecer uma relação de aliança, de amizade e de amor com ele.

O limite mais desastroso do paradigma ocidental tem a ver com o outro, pois o vê antes como obstáculo do que oportunidade de encontro. A estratégia foi e é esta: ou incorporá-lo, ou submete-lo ou eliminá-lo como fez com as culturas da África e da América Latina. Isso se aplica também para com a natureza. A relação não é de mútua pertença e de inclusão mas de exploração e de submetimento. Negando o outro, perde-se a chance da aliança, do diálogo e do mútuo aprendizado. Na cultura ocidental triunfou o paradigma da identidade com exclusão da diferença. Isso gerou arrogância e muita violência.

O outro goza de um privilégio: permite surgir o ethos que ama. Foi vivido pelo Jesus histórico e pelo paleocristianismo antes de se constituir em instituição com doutrinas e ritos. A ética cristã foi mais influenciada pelos mestres gregos do que pelo sermão da montanha e prática de Jesus. O paleocristianismo, ao contrário, dá absoluta centralidade ao amor ao outro que para Jesus, é idêntico ao amor a Deus. O amor é tão central que quem tem o amor tem tudo. Ele testemunha esta sagrada convicção de que Deus é amor(1 Jo 4,8), o amor vem de Deus (1 Jo 4,7) e o amor não morrerá jamais (1Cor 13,8). E esse amor incondicional e universal inclui também o inimigo (Lc 6,35). O ethos que ama se expressa na lei áurea, presente em todas as tradições da humanidade: “ame o próximo como a ti mesmo”; “não faça ao outro o que não queres que te façam a ti”. O Papa Francisco resgatou o Jesus histórico: para ele é mais importante o amor e a misericórdia do que a doutrina e a disciplina.

Para o cristianismo, Deus mesmo se fez outro pela encarnação. Sem passar pelo outro, sem o outro mais outro que é o faminto, o pobre, o peregrino e o nu, não se pode encontrar Deus nem alcançar a plenitude da vida (Mt 25,31-46). Essa saída de si para o outro a fim de amá-lo nele mesmo, amá-lo sem retorno, de forma incondicional, funda o ethos o mais inclusivo possível, o mais humanizador que se possa imaginar. Esse amor é um movimento só, vai ao outro, a todas as coisas e a Deus.

No Ocidente foi Francisco de Assis quem melhor expressou essa ética amorosa e cordial. Ele unia as duas ecologias, a interior, integrando suas emoções e os desejos, e a exterior, se irmanando com todos os seres. Comenta Eloi Leclerc, um dos melhores pensadores franciscanos de nosso tempo, sobrevivente dos campos de extermínio nazista de Buchenwald:

Em vez de enrijercer-se e fechar-se num soberbo isolamento, Francisco deixou-se despojar de tudo, fez-se pequenino, colocou-se, com grande humildade, no meio das criaturas. Próximo e irmão das mais humildes dentre elas. Confraternizou-se com a própria Terra, como seu húmus original, com suas raízes obscuras. E eis que a “nossa irmã e Mãe-Terra” abriu diante de seus olhos maravilhados um caminho de uma irmandade sem limites, sem fronteiras. Uma irmandade que abrangia toda a criação. O humilde Francisco tornou-se o irmão do Sol, das estrelas, do vento, das nuvens, da água, do fogo e de tudo o que vive e até da morte”.

Esse é o resultado de um amor essencial que abraça todos os seres, vivos e inertes, com carinho, enternecimento e amor. O ethos que ama funda um novo sentido de viver. Amar o outro, seja o ser humano, seja cada representante da comunidade de vida, é dar-lhe razão de existir. Não há razão para existir. O existir é pura gratuidade. Amar o outro é querer que ele exista porque o amor torna o outro importante.”Amar uma pessoa é dizer-lhe: tu não poderás morrer jamais” (G.Marcel); “tu deves existir, tu não podes ir embora”.

Quando alguém ou alguma coisa se fazem importantes para o outro, nasce um valor que mobiliza todas as energias vitais. É por isso que quando alguém ama, rejuvenesce e tem a sensação de começar a vida de novo. O amor é fonte de suprema alegria.

Somente esse ethos que ama está à altura dos desafios face à Mãe Terra devastada e ameaçada em seu futuro. Esse amor nos poderá salvar a todos, porque abraça-os e faz dos distantes, próximos e dos próximos, irmãos e irmãs.

Leonardo Boff 

sexta-feira, 28 de março de 2014

Viagem Missionária no Rio Purus

Manhã alegre e chuvosa de sábado, era o dia 15/03/2014. O barco atracado no porto principal de Manoel Urbano. Todos os passageiros a bordo a espera de alguém que voltou para buscar um mosquiteiro. São 08:30h da manhã, os motores entram em serviço e começa a viagem, primeiramente rumo ao Aracoã, onde haverá o Encontro Mensal dos Casais Paroquianos, o Pós-Encontro e, depois seguimos viagem em visita às demais comunidades. 

O nosso barco até o Aracoã
É assim que se viaja no barco - bom demais!
Na Comunidade S. Francisco do Aracoã, com a monitora e anfitriã, D. Matilde e seu esposo Antônio Guíta, houve o encontro dos casais na noite do sábado e domingo de manhã, a Santa Missa e a celebração de 07 batizados. Foi uma celebração bem participada com a presença de muitas pessoas da Comunidade além dos casais missionários que foram de Manoel Urbano.

Pós Encontro

Seguindo viagem somos três Missionários: Pe. Francivaldo, Benta e eu, agora numa voadeira.  Vamos subindo o Purus e entrar no Chandless, encontrando e visitando as pessoas e comunidades ao longo dos dois rios. Nossa segunda parada foi em outra Comunidade S. Francisco no Seringal Santa Cruz Velha. Chegamos na tarde do Domingo (16), celebramos a Eucaristia e o batizado da Maria Clara. Dormimos aqui.

Essa viagem de voadeira, é muito desgastante, pois enfrentamos, ora a chuva ora o sol escaldante e muito vento. É preciso se proteger bem e nós o fazemos na medida do possível, como se pode ver nas fotos.




Nesta Comunidade celebramos 2 Missas: no Domingo a tarde e segunda de manhã, para as crianças e pais. 
Depois, almoçamos e fomos para a outra Comunidade na Terra Alta, onde foram feitos 27 batizados e encontro com a Comunidade. Após as atividades celebradas nesta Comunidade, tivemos que sair logo para a outra, visto que a programação estava um pouco acelerada. O nosso motorista, Clemildo, está um tanto preocupado com o motor da voadeira, que é pequeno e não tem tanta força pra empurrar o bote, ou seja, a viagem está muito lenta, a voadeira não voa nada. 

Chegamos no Oiapoque já noite, debaixo de uma chuva fininha. A viagem de voadeira é boa com o tempo bom, por causa da rapidez, mas nestes momentos: chuva, sol forte, anoitecer na viagem, é muito incômodo e dá um medo... Dormimos no barco que estava atracado no porto, para evitar subir o barranco com as "tralhas" todas, mas mesmo assim, tivemos que enfrentar a lama e subir o barranco, para cumprimentar o pessoal da casa. Conversamos um pouco e, lá vamos nós barranco abaixo, para cuidar da nossa dormida. Trouxemos uma garrafa com água quente e aí, no barco, fizemos um nescafé e tomamos com bolachas. Foi o nosso jantar. Armamos as redes no batelão e, escapando das baratas, dormimos. A noite inteira choveu  forte e de manhã, subimos mais uma vez o barranco, na lama. Tomamos café com tapioca e, como não chegou ninguém (por causa da chuva e porque estavam esperando a nossa passagem de barco e nós viemos de voadeira, o que nunca tinha acontecido),  remarcamos as atividades para a volta, com dia e hora certinho. E seguimos viagem para o Chandless. Paramos um pouco na minha comadre "Morena" e na aldeia "Maloca", visita a Escola Pe. Paolino, já dentro do Chandless. Foi aí na Maloca, onde encontrei o Nílson, uma criança especial que nasceu com lábio leporino. Agora já com 05 aninhos fez a 1ª cirurgia externa, faltando ainda as internas, para reestruturar todo o céu da boca.   
Minha Comadre "Morena" e família: meu afilhado Maurício
(abraçado pela sua irmãzinha)
 

Este é o Nílson. Olhando o que falta para a cirurgia.
 


Chegamos na casa do Sr. Olegário por volta de três horas da tarde. Por sorte, seus filhos tinham ido pescar e chegaram com muitos peixes (mandin) e comemos peixe fresquinho, muito bom. Neste dia descansamos, não realizamos nenhuma atividade, só no dia seguinte pela manhã. Dia 19/03, dia solene do nosso bom pai S. José, celebramos com a família que 
nos acolheu. Foi simples, mas muito significativo.
Padre recebendo cinzas
 


Família que nos acolheu
Seu Olegário e D. Marta
 

Após a missa com a família, seguimos viagem para a casa do seu Jerônimo, onde a comunidade estava avisada da nossa chegada e esperando para celebrar os batizados.
A Missa e os batizados foram feitos no final do dia já terminando a noite, quando todos voltaram para suas casas, de canoa, já escuro. Mesmo eles dizendo que são acostumados, fico preocupada. 







Neste dia (19/03) a Benta caiu de uma altura de mais de 1 metro e meio. Machucou um pouco a cabeça e o pescoço, mas graças a Deus, não foi nada de grave. Louvado seja Deus!.
Depois das celebrações, quando todos se foram, armamos nossas redes na sala e dormir. De manhã, nos levantamos para seguir viagem de volta. Tomamos o quebra-jejum com mingau de banana e tapioca (goma que ganhamos da Zeza). 

Já é 20 de abril. Descemos o Rio Chandless até encontrar o Purus. Antes disso, fomos visitar a sede do Parque Estadual Chandless que está abandonada. Tudo entregue ao Deus-dará. Dinheiro público jogado fora. Veja as fotos:





Visitamos também algumas aldeias indígenas: Santo Amaro, Boaçu, Santa Júlia e Apuí. Na primeira aldeia que chegamos (Povo Kulina que se autodenomina "Madirra"), os indígenas logo pintaram nosso rosto e a comunidade "batizou" o Padre Francivaldo e a Benta. O Padre recebeu o nome de "Rarrawino" e, a Benta de "Rramina". Eu, já fui batizada faz tempo e todos eles me conhecem por meu nome: "Huissowa".

Chegamos na Comunidade no final da tarde. Ainda com tempo de bater uma bolinha no campo com as crianças. Foi muito divertido e deu também pra queimar algumas calorias a mais, depois de tantos dias sentados.

Dormimos na Escola, o padre, a Benta e eu. O motorista dormiu no barco que estava no porto, para vigiar também nossas coisas. Amanheceu o dia chovendo, chuva forte. Mesmo assim, as pessoas começaram a chegar devagarinho. Pelas 09:00h houve a missa e uma preparação para os pais, mas não aconteceram os batizados, ficaram para o mês de Julho quando vem a equipe de Missionários do Ceará fazer Missão aqui na Paróquia.




Coral da Comunidade
 Após a Missa, descemos. No barco, comemos uma farofa de sardinha que a Benta havia preparado. Farofa com chuva, era difícil comer, a farofa vinha molhada... mas a vontade de comer era maior que qualquer dificuldade. Todos comemos da mesma panela. Chegamos na casa do Ribamar (ponto de referência ao longo do Rio) - Santa Cruz, por volta de 01:00h da tarde. Paramos um pouco, almoçamos e, como era bastante cedo seguimos viagem para chegar em casa. Este era o dia 21 de Março.




Seguindo viagem casa. Agora já com a sensação do dever cumprido, chegando em casa, sentimo-nos mais despreocupados, tranquilos e é sempre uma emoção voltar a casa. Que bom! Graças a Deus que temos uma casa, uma  Comunidade de Irmãs que nos acolhe, uma cama aconchegante para repousar, um Cristo Euscarístico que nos fortalece. Tudo é dom, tudo é graça do nosso Bom Deus. Obrigada, Pai!



Era assim o tempo durante a nossa viagem
Indígenas na cidade
Tapiri dos Indígenas na cidade, do outro lado do Rio

Porto de Manoel Urbano