quinta-feira, 18 de setembro de 2014

O porquê das diferenças entre os evangelhos


Os evangelhos não são biografia de Jesus. Quando foram escritos, não tinham a intenção de narrar nos detalhes o que se passou com o Nazareno. Com certo grau de humor, costumamos dizer o seguinte: se quisermos saber direitinho como foi a vida de Jesus, teremos que esperar nossa ressurreição e perguntar a ele. Mas é possível que a pergunta não faça mais sentido. Agora, se desejamos conhecer a experiência que as primeiras comunidades fizeram à luz do que Jesus disse e fez, aí sim podemos ler os evangelhos. E como as comunidades eram diferentes entre si, é normal que um mesmo fato a respeito da vida de Jesus tenha sido registrado de forma diferente por cada comunidade.
Para nosso olhar de fé, sabemos que a inspiração divina permitiu essa multiplicidade de relatos exatamente para que pudéssemos seguir aprendendo que as diferenças nos enriquecem e nos complementam. Se assim não fosse apenas um evangelho teria sido suficiente.
As diferenças entre os evangelhos, portanto, são fruto em primeiro lugar da vontade divina. Mas também de outras condições. Vejamos algumas.

1.    Diferentes maneiras de se contar um mesmo fato
Em sua vida pública, Jesus constituiu um movimento itinerante, formado de mulheres e homens (veja Lc 8,1-3) e andou por cidades e povoados anunciando o Reino, curando as pessoas e propondo um jeito novo de viver. As coisas que disse e fez não foram anotadas de imediato, foram gravadas na mente e no coração das pessoas, que passaram a contar para seus filhos e filhas, na catequese, nas celebrações, na vida das primeiras comunidades. A isso nós chamamos de tradição oral. Somente mais tarde teve início o processo de redação dos textos, incialmente em forma de pequenas coleções (ditos de Jesus, relatos da paixão, coleção de parábolas, coleção de milagres etc). Ora, é evidente que um mesmo fato ou uma fala que tivessem um núcleo comum adquirissem “caminhos” e tradições diferentes na medida em que eram transmitidos “de boca em boca” por diferentes grupos. Na Bíblia também funciona o famoso “quem conta um conto aumenta um ponto”.
Esta é uma das razões porque um relato difere do outro (confira, a título de curiosidade, o relato do episódio de Jesus caminhando sobre as águas na versão de Mc 6,45-52 e na versão de Jo 6,16-21; se quiser, confira também com Mt 14,22-33). Veja também como a oração do Pai Nosso é diferente em Lc 11,1-4 e em Mt 6,9-13.

2.    Épocas e contextos diferentes
Tomemos o seguinte exemplo: por defender a floresta e o povo empobrecido da Amazônia, contrariando os interesses das elites e do capital internacional, Chico Mendes foi assassinado em 22 de 1988, em Xapuri, no Acre. Seu testemunho repercute até hoje. Imaginemos o quanto seriam diferentes as histórias de sua vida se escritas nos anos que sucederem sua morte por gente ainda sofrendo ameaças, das histórias contadas por seus familiares e escritas por um neto seu que não o conheceu pessoalmente, 30 anos depois, já vivendo no Rio de Janeiro. Bem diferente seria também uma versão escrita por uma pessoa de algum país europeu que apenas escutou relatos orais. É impossível que a situação de quem escreve não se reflita no texto.
O mesmo aconteceu com os evangelhos. Ao escreverem os textos, as comunidades também foram influenciadas pelo contexto em que viviam.  Por volta do ano 70, época da destruição de Jerusalém pelos romanos, deve ter surgido o evangelho de Marcos, o primeiro dos quatro. Em várias passagens texto de Marcos é bastante marcado pelo silêncio e pelo medo. Em Marcos, Jesus morre em situação de abandono (compare Mc 15,33-39 com Jo 19,28-30). É como se a comunidade cristã, enfrentando a guerra e o massacre, estivesse repetindo o salmo: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste! (Sl 21,2). Cerca de 30 anos mais tarde, quando a comunidade de Joao relata o mesmo fato, já quer destacar um Jesus senhor da história e vencedor da morte, em condições de ele mesmo entregar o seu espírito, dizendo que tudo está consumado (Jo 19,30). Diferença de contextos. 

3.    Destinatários diferentes
Nos dias de hoje os evangelhos se destinam às nossas comunidades de fé. Mas à época em que foram escritos, tiveram destinatários diferentes. O evangelho de Mateus foi escrito para comunidades judaico-cristãs. É comum que acentue aspectos importantes para o judaísmo, como, por exemplo, o pleno cumprimento da lei (Mt 5,17-18). Enquanto em João o próprio Jesus viaja pela Samaria com seus discípulos (Jo 4), em Mateus ele diz que os discípulos não devem entrar em terras de samaritanos (Mt 10,5). O evangelho de Lucas tem como destinatárias as comunidades cristãs do mundo greco-romano, menos presas às tradições judaicas. O texto de Mt 10,5 não caberia no evangelho de Lucas.  

4.    Diferentes acentos teológicos
No essencial os evangelhos coincidem: Deus envia se filho ao mundo, ele forma um grupo de seguidoras/es e vive servindo os pobres; sua forma de agir acaba desagradando as autoridades judaicas e romanas e por esse motivo é assassinado na cruz; mas ressuscita e as primeiras anunciadoras do novo são as mulheres. Esse fio comum perpassa os quatro relatos: Marcos, Mateus, Lucas e João.
Entretanto, cada evangelho tem sua especificidade teológica. Marcos apresenta Jesus como um curador da vida, alguém que passa a maior parte do tempo curando as pessoas e expulsando demônios. Mateus, por sua vez, insiste nos longos discursos de Jesus, apresentando-o como um rabino, um mestre da justiça. A dimensão do perdão e da salvação universal e mais destacada em Lucas do que em Mateus e Marcos. Para João, Jesus é o verbo que sempre existiu, mas ao se encarnar, ensina-nos a viver um discipulado de iguais.
Outro exemplo: na genealogia de Mateus, Jesus é descendente de Abraão (Mt 1,2). Como Abraão é pai do povo de Israel, Jesus é, portanto, um bom judeu. Já em Lucas, Jesus não é descendente apenas de Abraão, mas de Adão (Lc 3,38). Em sua visão mais universalista, Lucas apresenta Jesus não como filho do povo judeu, mas de toda a humanidade.

5.    Uso diferente de textos do Primeiro Testamento
Dado o seu interesse teológico diferente ou mesmo a diferente tradição que preservou o fato, as comunidades também recorrem a diferentes textos que teriam sido ditos por Jesus em momentos específicos. No episódio da expulsão dos vendilhões do templo, de acordo com Marcos, Jesus teria dito: Minha casa será chamada casa de oração para todos os povos, mas vocês fizeram dela um covil de ladrões. Já de acordo com o texto de João, as palavras de Jesus teriam sido outras: Não façam da casa de meu pai uma casa de comércio. Na verdade, enquanto o texto de Marcos recorre a Is 56,7 e a Jr 711, João faz uso de Zc 14,21. Ainda conforme João, os discípulos teriam se lembrado do Sl 69,10: O zelo por tua casa me devovará.
Outro exemplo é a última frase que Jesus teria dito na cruz, antes da morte. Enquanto Marcos cita o Salmo 22,2 (Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste!), Lucas cita o Salmo 31,6: Em tuas mãos entrego o meu espírito!
No relato da infância de Lucas, depois de nascer, Jesus volta de Jerusalém para a Galileia, não teria ido morar no Egito (cf Lc 2,39-40). Em Mateus, como Jesus e comparado a Moisés, ele vai morar no Egito, é perseguido por um novo faraó (Herodes), tem a ajuda dos magos (como Moisés teve das parteiras) e proclama, no monte a nova Lei, as Bem-aventuranças (Mt 5.1-12). Trata-se, na versão de Mateus de uma releitura do êxodo, como Oseias já havia feito: Do Egito chamei o meu filho (Os 11,2).

6.    Um exercício prático
Tomemos o relato das mulheres indo ao túmulo na madrugada da ressurreição, presente nos quatro evangelhos: Mc 16,1-8; Mt 28,1-10; Lc 24,1-11 e Jo 20,1-18. Muitas diferenças podem ser observadas entre os relatos. Propomos aqui que identifiquemos apenas algumas, com base na resposta às seguintes perguntas: a) quem são as mulheres que vão ao túmulo na madrugada da ressurreição? Quem está lá para avisar as mulheres que Jesus está vivo ou para dirigir-lhes alguma palavra? Qual a reação das mulheres?
Comecemos pela segunda pergunta: em Marcos, encontramos um jovem de branco. A versão de Mateus se inspira em Marcos, mas no lugar do jovem aparece um anjo. Lucas também se inspira em Marcos, mas fala de dois homens com vestes resplandecentes. Tanto em Mateus como em Lucas funcionou o “quem conta um conto aumenta um ponto”. João menciona dois anjos, possivelmente por fazer referência ao novo jardim não manchado pela morte (Jo 19,41). Se no antigo jardim Deus colocou os querubins para impedir que o ser humano chegasse à árvore da vida (Gn 3,24), em Jo 20,12-13 os anjos são os primeiros a confortar a mulher, com a pergunta carinhosa depois repetida por Jesus: Por que choras?
Observemos a diferença quanto à reação das mulheres. Em Marcos, elas fogem em silêncio: não contaram nada a ninguém porque tinham medo (Mc 16,8). Já vimos que o contexto em que se escreveu o evangelho de Marcos é marcado pelo medo da perseguição romana. Nos demais textos, elas contam aos discípulos. O medo ainda permanece, mas elas contam. O texto de Mateus acrescenta que apesar do medo, elas estavam alegres (Mt 28,8). Sabemos que o texto de Mateus foi escrito cerca de 15 a 20 anos depois do texto de Marcos. As comunidades ainda experimentavam o medo, mas eram capazes de anunciar com mais alegria a ressurreição.
Em relação à primeira pergunta, notemos que o nome de Maria Madalena está em todos os textos, o que nos permite concluir que ela foi a grande apóstola da ressurreição. Mas não há coincidência em relação aos nomes das demais mulheres. Por que? É muito possível que as comunidades tenham se recordado de mulheres que foram lideranças marcantes à sua própria tradição. Ou seja, para a comunidade de Marcos, além de Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e Salomé ficaram na memória da comunidade. Já de acordo com Lucas, o nome de Joana foi mais mencionado e ficou gravado (Lucas fala também de outras mulheres).
No caso de João, Maria Madalena vai só ao túmulo. E a narrativa tem um sentido bastante especial, baseando-se em dois textos do Primeiro Testamento. Por um lado, o texto refaz a trajetória da amada em busca do seu amado, conforme os belos poemas do Cântico dos Cânticos: Encontraram-me os guardas que rondavam a cidade: vocês viram o amado da minha vida? Passando por eles, contudo, encontrei o amado da minha vida. Agarrei-o e não vou soltá-lo (Ct 3,3-4). Por outro lado, Jo 20,1-18 apresenta-nos uma releitura da criação: trata-se de uma nova semana, um novo jardim e uma nova humanidade, representada em Jesus e em Maria Madalena. Relato de um encontro que transforma e que permitiria a ela dizer, quase parafraseando Gabriel García Marques: “Gosto de você pelo que você é, mas também pelo que sou quando estou com você!”
(Texto de autoria de Edmilson Schinelo)
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sábado, 9 de agosto de 2014

Clodovis Boff: sobre a Teologia da Libertação


Mesmo tendo participado da fundação da TdL, Frei Clodovis assegura que já tinha suas reservas em virtude da falta de rigor teórico e da priorização "do político às expensas da fé”. Com o passar dos anos, vendo que essa prioridade não mudava, mas se firmava cada vez mais, decidiu abrir suas críticas. Hoje, o religioso defende que é desaparecendo no caudal maior da teologia cristã que a Teologia da Libertação cumpre sua missão histórica. A ADITAL conversou com Frei Clodovis sobre o assunto. Confira a primeira de uma série especial de entrevistas a ser publicada todas as sextas-feiras pela Adita. 

Quarenta e dois anos depois, a Teologia da Libertação ainda vive?
 Ela ainda faz sentido nos dias atuais?
Frei Clodovis M. Boff- Sim, existem teólogos da libertação que se reúnem e escrevem. Mas seu declínio como tendência à parte é inegável. A meu ver, a Teologia da Libertação "prescreveu” historicamente. Deu o que tinha que dar: conscientizar a Igreja sobre a opção preferencial pelos pobres. Ora, isso foi fundamentalmente incorporado, sem mais discussão, pelo discurso normal da Igreja. Assim, a corrente liberacionista reentra, finalmente, na grande correnteza da teologia católica ou universal, reforçando e atualizando aquilo que foi sempre uma riqueza da Igreja: o amor preferencial pelos sofredores de toda a sorte. A Teologia da Libertação poderia até permanecer como um espécimen da chamada "teologia do genitivo”, teologia necessariamente parcial, como quando se fala na "teologia da graça”, na "teologia do casamento” ou ainda na "teologia de São Paulo”. Essas teologias particulares são apenas tematizações de um aspecto da fé. Foi nesse sentido, como teologia parcial, sintonizada com o todo da fé, que a Teologia da Libertação foi declarada por João Paulo II, em Carta aos Bispos do Brasil (09/04/1986) "oportuna, útil e necessária” (n. 5). Mas até que a Teologia da Libertação pretende ser uma teologia completa, ela não tem futuro dentro da Igreja. Ela, de fato, vai perdendo cada vez espaço dentro dela.

"Quer-se mostrar aqui que a Teologia da Libertação partiu bem, mas, devido à sua ambiguidade epistemológica, acabou se desencaminhando: colocou os pobres em lugar de Cristo. Dessa inversão de fundo resultou um segundo equívoco: instrumentalização da fé "para” a libertação. Erros fatais, por comprometerem os bons frutos desta oportuna teologia” (artigo de 16.8.2008). Em qual momento e por que você se tornou um dos grandes críticos da Teologia da Libertação?
Fr. Clodovis M. Boff- Desde sempre, tive reservas em relação à Teologia da Libertação, quer por causa de sua falta de rigor teórico, quer devido ao seu pendor ideológico: o de priorizar o político às expensas da fé. Embora, em minha tese doutoral "Teologia e prática”, publicada há mais de 40 anos(Vozes, 1978), eu já tivesse estabelecido claramente a prioridade da fé sobre a política (especialmente na II Seção, cap. I), imaginei que a prioridade conferida ao político fosse coisa transitória, seja pelo urgentismo social, que se vivia naqueles tempos difíceis (ditadura e capitalismo selvagem), seja por se mostrar uma doença infantil, normal para todo movimento histórico novo. Mas quando, com o passar do tempo, fui me dando conta de que, desgraçadamente, aquela prioridade, em vez de refluir, ia se afirmando cada vez mais, com grave dano para a identidade da fé, a missão própria da Igreja e o destino último do ser humano, decidi então explicitar, sem rebuços, minhas críticas.

Em quais pontos há divergências entre os teólogos da TdL?
Fr. Clodovis M. Boff- As divergências não são de pouca monta, mas fundamentais, tocando os princípios mesmos da fé. Quem é Senhor da Igreja? Quem ocupa seus pensamentos? Cristo ou os pobres? Se dizemos: Cristo, é garantido, em princípio, que os pobres terão na Igreja seu "lugar eminente”, para falar como Bossuet. Mas se dizemos: os pobres, então Cristo pode ser facilmente despedido da sociedade e da vida, como foi com o marxismo.

Em alguns textos você fala em desgaste e crise da TdL. Como esse "modo de teologizar” pode enfrentar a crise e seguir forte?
Fr. Clodovis M. Boff- Como disse acima, é paradoxalmente desaparecendo no caudal maior da teologia cristã que a Teologia da Libertação cumpre sua missão histórica. É como o torrão de açúcar, que só existe para se dissolver no café: continuará aí presente, adoçando todo o café, mas invisível. Ou, numa metáfora mais bíblica, é como João Batista, que disse: "Importa que Ele cresça e eu diminua”, ao contrário dos judeus que, chamados a acolher o Messias, se recusaram a ser o que deveriam se tornar. Deveriam ter feito como Saulo, que só cumpriu seu destino tornando-se Paulo. Tal também deveria ser o termo final da Teologia da Libertação: tornar-se teologia cristã sem mais, depois de ter contribuído para seu enriquecimento.

Os teólogos da libertação estão envelhecendo, o senhor acredita em uma renovação?
Fr. Clodovis M. Boff- Quando se leem as produções atuais dos chamados "teólogos da libertação”, nota-se aí que o discurso se repete ad nauseam. São "variações sobre o mesmo tema”: os pobres socioeconômicos e sua libertação social. Insisto: só é possível uma Teologia da Libertação, como, aliás, qualquer outra espécie de teologia, sob a condição de começar e também acabar no horizonte transcendente da fé. Fora disso, a Teologia da Libertação só produzirá "mais do mesmo”. E, assim como o Papa Francisco costuma dizer que uma Igreja sem a fé incondicional no Cristo é uma "ONG piedosa”, assim também uma Teologia da Libertação (ou qualquer outra), sem essa mesma fé primacial no Cristo, é uma ideologia religiosa, concorrendo ou então colaborando com outras ideologias. Torna-se, com isso, cada vez mais irrelevante, pois, de ideologias o mundo atual está cansado.

A abertura que o Papa Francisco vem dando a teólogos da TdL pode ajudar a revigorá-la?
Fr. Clodovis M. Boff- O discurso e, mais ainda, o exemplo do Papa atual poderia servir de exemplo para um cristianismo que não precisa de ideologia, mesmo sob um rótulo teológico, para se ocupar a sério com os pobres. A Teologia da Libertação só pode se revigorar dentro da Igreja, no seio de seu pluralismo teológico, a título, portanto, de uma teologia particular.

Como os teólogos da libertação têm trabalhado e como deveriam pensar questões polêmicas como aborto, diversidade (união homoafetiva) e participação da mulher na igreja?
Fr. Clodovis M. Boff -Como para a questão do pobre, central na Teologia da Libertação, todas essas outras questões devem ser tratadas por qualquer teólogo a partir dos princípios perenes da fé. Mas, é claro – e esta é a função próprio do teólogo na Igreja –, esses princípios devem ser bem compreendidos e postos em confrontos com a experiência da história, que tem muito a ensinar à Igreja, como reconhece o Vaticano II na Gaudium et Spes (cf. GS 44).

E no caso da Igreja Católica, quais são seus desafios atuais diante de tantas demandas sociais, políticas e econômicas?
Fr. Clodovis M. Boff- Certamente, a Igreja já está fazendo muito no campo social, e precisará fazer mais. Mas, é preciso que fique claro: não é essa a missão originária, "própria” da Igreja, como repete expressamente o Vaticano II (cf. GS 42,2; e ainda 40,2-3 e 45,1). A missão social é, antes, uma missão segunda, embora derivada, necessariamente, da primeira, que é de natureza "religiosa”. Essa lição nunca foi bem compreendida pelo pensamento laico. Foram os Iluministas que queriam reduzir a missão da Igreja à mera função social. Daí terem cometido o crime, inclusive cultural, de destruírem celebres mosteiros e proibido a existência de ordens religiosas, por acharem tudo isso coisa completamente inútil, mentalidade essa ainda forte na sociedade e até mesmo dentro da Igreja. Agora, se perguntamos: Qual é o maior desafio da Igreja?, Devemos responder: É o maior desafio do homem: o sentido de sua vida. Essa é uma questão que transcende tanto as sociedades como os tempos. É uma questão eterna, que, porém, hoje, nos pós-moderno, tornou-se, particularmente angustiante e generalizada. É, em primeiríssimo lugar, a essa questão, profundamente existencial e hoje caracterizadamente cultural, que a Igreja precisa responder, como, aliás, todas as religiões, pois são elas, a partir de sua essência, as "especialistas do sentido”. Quem não viu a gravidade desse desafio, ao mesmo tempo existencial e histórico, e insiste em ver na questão social "a grande questão”, está "desantenado” não só da teologia, mas também da história.

Já faz algum tempo que se fala sobre uma crise da Teologia da Libertação (TdL), corrente teológica fundada há 42 anos, que se caracteriza por uma opção preferencial pelos pobres e pela luta por justiça social. Nas palavras do Frei Clodovis Boff - religioso da ordem dos Servos de Maria, que juntamente com seu irmão mais famoso, Leonardo Boff, foi um dos principais teólogos da TdL -, esse modo de teologizar "deu o que tinha que dar”, ou seja, conscientizou a Igreja sobre a opção preferencial pelos pobres, contudo "não tem mais futuro dentro da igreja” e por isso está perdendo cada vez mais espaço dentro dela.

terça-feira, 8 de julho de 2014

O Dia dos meus Votos - 35 Anos de VRC


Da esquerda para direita: eu, Neuba, Valdeirles e Terezinha Pires.
Hoje, 08 de Julho foi um dia mais que especial pra mim, foi muito significativo, feliz, pleno... pois foi exatamente nesta data que eu pronunciei, pela primeira vez, a fórmula oficial dos meus Votos Religiosos: de Castidade, Pobreza e Obediência. 
Éramos 06 (seis) Noviças no primeiro ano, uma ficou no caminho ainda no Noviciado; nós, as outras cinco (Neuba, Paula, Terezinha Pires, Valdeirles e eu) professamos neste dia 08 de Julho de 1979, cercada de mimos e delicadezas do nosso Bom Deus e de nossa querida Mãe D. Rosita, além do Amor terno e compassivo do Sagrado Coração de Jesus, a quem nossa Turma é dedicada.

E alegres nós cantávamos: 
"Eis o porto plácido com que eu sonhava.
Eis o porto azul todo banhado em luz,
Lá por fora ruge a tempestade brava,
mas eu nada temo junto a Ti, Jesus."

terça-feira, 10 de junho de 2014

Festa de Pentecostes em Rio Branco

Foi uma grande graça que Deus me concedeu, estar em Rio Branco neste dia e poder participar da festa de inauguração da Igreja Matriz da Paróquia do Divino Espírito Santo.
Foi uma solenidade linda e uma participação do Povo de Deus mais bonita ainda, e eu estava lá. 
O prédio muito bem planejado e as esculturas em madeira nos lembram fatos bíblicos e nos levam a meditar e a rezar a Palavra de Deus.
Parabéns ao Pároco, Pe. Luis Pieretti e Comunidade Paroquial, assim como ao nosso Bispo D. Joaquín.

Ritos iniciais
 

Homilia
 

Consagração e Incensação do Altar 
Acendimento das velas da Menorá
Unção das paredes
Consagração do Pão e do Vinho
Transladação do Santíssimo para a Capelinha
Discurso emocionado do Pároco Pe. Luis Pieretti


Bênção Solene Final

D. Joaquin, após a Missa, com as Irmãs: Terezinha Rubens e Inêz Machado
 No final da tarde participei também da grande festa da Diocese, no Ginásio do SESI, onde todas as Paróquias se fizeram presentes pra celebrar o Dia de Pentecostes. Foi também um momento muito rico e de grande graça para toda nossa Igreja.
"Vinde Santo Espírito e do céu mandai, de tua Luz, um raio."






quarta-feira, 30 de abril de 2014

No Caminho de Emaús - Ele está no meio de nós!


No Caminho de Emaús - Ele está no meio de nós! (Lucas 24,14-31) 


1. De que estavam falando pelo caminho?

Duas pessoas andando pela estrada. Desanimadas. Tristes! Estavam indo na direção contrária. Fugindo. Buscando. Imagem de ontem e de hoje. Imagem de todos nós. No ano de 85, muitos discípulos e discípulas andavam pelo caminho, tristes, desanimados, sem saber se estavam no caminho certo. Parece que a cruz ficou maior e mais pesada. O desemprego, a violência, a droga, a falta de atenção séria à saúde e à educação, a falta de dinheiro, as dívidas... o desespero. Sentimo-nos impotentes frente à corrupção que desvia fundos dos cofres públicos, ou frente à má administração que deixa o povo no desamparo. O sistema neoliberal vai gerando cada dia mais exclusões de indivíduos, grupos e países. Parece que vivemos em um caos, em uma situação sem saída. Temos a impressão de estarmos caminhando ladeira abaixo, para o pior.

2. Tinham os olhos vendados

A experiência da morte de Jesus tinha sido tão dolorosa que eles perderam o sentido de viver em comunidade, abandonaram o grupo de discípulos e discípulas. Sentiram-se impotentes diante do poder que matou Jesus e procuraram salvar pelo menos a própria pele. Sua frustração era tão grande, que nem reconheceram Jesus, quando este se aproximou e passou a caminhar com eles (24,15). Tinham um esquema rígido de interpretação sobre o Messias, e não puderam ver a salvação de Deus entrando em suas vidas. Algumas discípulas tentaram ajudar os companheiros a perceber que Jesus estava vivo (24,22-23). Mas eles se recusaram a acreditar (24,24). Esta notícia era por demais surpreendente. Era o mesmo que dizer que Jesus era o vencedor do caos e da morte. Só podia ser fantasia, sonho, delírio de mulheres (24,11). Impossível acreditar! Quando a dor e a indignação pegam forte, há pessoas que ficam depressivas, desesperadas. Outras se tornam coléricas e amargas. Algumas invocam o fim do mundo com catástrofes que vão tirar os maus da face da terra. Outras buscam evadir-se numa oração sem compromisso social e político. Mas nenhuma dessas posturas ajuda a abrir os olhos e analisar a situação com fé lúcida e responsável, capaz de inventar saídas para esta situação aparentemente sem saída.

3. A Bíblia esquentou o coração, mas não abriu os olhos


Caminhando com eles, sem eles se darem conta, Jesus fazia perguntas. Escutava as respostas com interesse. Dessa maneira, obrigava-os a irem fundo no motivo da sua tristeza e fuga. Procurava fazê-los expressar a frustração que sentiam. Depois, ia iluminando a situação com palavras da Escritura. Procurava situar os discípulos na história do povo, para que pudessem entender o momento que estavam vivendo. Foi uma experiência apaixonante. Mais tarde, eles iriam fazer uma reflexão e perceber que o coração deles ardia, quando Jesus lhes explicava as Escrituras pelo caminho (24,32). Mas a explicação que Jesus dava a partir das Escrituras não conseguiu abrir os olhos dos discípulos.

4. Eles o reconheceram na partilha do pão


Caminhando com Jesus, os discípulos sentiram o coração arder. Cresceu dentro deles uma atitude de acolhida: "Fica conosco! Cai a tarde e o dia já declina!" (24,29). Foi só então que a partilha aconteceu. Partilha de vida, de oração e de pão. Partilha que abriu os olhos e provocou a mais importante descoberta da fé: ele está vivo, no meio de nós! (24,30-31). Esta descoberta lhes deu forças para voltar a Jerusalém, mesmo de noite. Tinham pressa de partilhar com os outros a descoberta que os fez renascer e ter coragem para enfrentar o poder da morte. Sim, Jesus era de fato o vencedor do caos e da morte! Não era fantasia das mulheres. Era uma realidade escondida, misteriosa, que só pode ser descoberta por quem aprende a partilhar, a se entregar, a sair do círculo vicioso dos interesses egoístas, para lutar junto com os outros pela vida de todos. Quando seus olhos se abriram, livres das trevas e travas por poder dominante, puderam descobrir a morte de Jesus como expressão máxima de um amor sem limites. Amor que tem sua origem no Pai cheio de ternura, gerador incansável da vida. Amor que tomou carne em Jesus de Nazaré para visitar e redimir a humanidade. Amor que se mantém fiel até ao extremo de dar a própria vida, para que todos tenham vida (Jo 10,10). Amor que foi confirmado pelo Pai, quando ressuscitou Jesus da morte.

5. Renascer para uma nova esperança


Esta experiência fez os discípulos renascerem para uma nova esperança. Ao redor de Jesus vivo, eles se uniram de novo e assumiram o projeto de vida para todos. A esperança é como um motor que leva a acreditar nos outros e a inventar práticas de fé. Com a esperança renovada, aquilo que parecia uma total impossibilidade passou a ter um novo significado para eles. Perderam o medo, superaram a experiência de incapacidade e de impotência. Deixaram de lado o negativismo derrotista e voltaram, em plena noite, como se fosse de dia. Voltaram para recomeçar, para reconstruir a comunidade, expressão, sinal e sacramento da presença de Jesus Ressuscitado.

6. Refazer hoje a experiência do caminho de Emaús


Desafiados pela atual conjuntura, somos chamados a viver hoje a experiência de Emaús e descobrir, na partilha solidária, a presença de Deus no meio de nós. Como comunidade de fé, somos chamados a reconstruir, no diálogo, na abertura e na acolhida, o projeto de Jesus, pelo qual ele entregou sua própria vida. A solidariedade leva à descoberta da força libertadora de Deus na história. Com olhar lúcido e criativo procuraremos expressar esta fé numa solidariedade bem concreta e articulada, seja a nível de grupo, de bairro ou de cidade. Dizer articulada quer dizer que esta ação solidária deve ser comunitária. Só assim será de fato sinal do Reino e poderá intervir em favor da vida, da vida indefesa dos pobres, os preferidos de Jesus.

Texto: C. Mesters e M. Lopes
 
A imagem é de autoria de Elda Broilo.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Primeira Comunhão


Pe. Olívio preparando o Círio Pascal
Foram 17 os adolescentes que fizeram sua Primeira Comunhão neste Domingo da Páscoa da Ressurreição do Senhor. No dia anterior, na Vigília Pascal, dois deles receberam o Sacramento do Batismo: Marta e Riquelme.

Marta e Riquelme com seus Padrinhos, durante o Batismo, recebendo a Luz de Cristo
A Turma antes da Missa
"Chegou o dia da querida festa. 
Chegou a hora em que vamos comungar. 
A inocência brilha em nossa testa. 
  Queremos sempre a Jesus amar.

Senhor Jesus, nós cremos firmemente
E confessamos sem medo e sem temor
Que estás na Santa Hóstia presente
  Sois nosso Deus e Salvador."
Momento da Renovação das Promessas do Batismo
A Turma com o Pároco, Pe. Olívio e os Catequistas: Ednaldo e Elena
Na Recepção: entrega da Lembrancinha 















domingo, 20 de abril de 2014

Nia Moris Hias! Ele Ressuscitou! Aleluia!!


Nia la iha ne'e. Nia Moris Hias. (Ele não está aqui. Ele Ressuscitou!)

"Sabe o que mais quero agora, meu amor?
Morar no interior do meu interior pra entender porque se agridem, se empurram para o abismo se debatem, se combatem, SEM SABER..." 
(canção de Vander Lee).

O Bem Viver põe o acento na qualidade de vida, mas não a reduz ao consumo ou à propriedade de bens materiais. Precisa questionar o reducionismo de apresentar o desenvolvimento apenas como crescimento econômico e se alertar para sua inviabilidade uma vez que os recursos naturais são limitados e a capacidade dos ecossistemas de lidar com os impactos ambientais também é pequena. E também criticar a base antropocêntrica do desenvolvimento atual, onde tudo é valorizado em função da sua utilidade para grupos de privilegiados e não de todos os seres viventes.  No silêncio desta nossa terra amazônica, a Palavra de Deus nos abre aos horizontes da Esperança: "Com efeito, sabemos que toda a criação, até o presente, está gemendo como que em dores de parto, e não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, gememos em nosso íntimo, esperando a condição filial, a redenção de nosso corpo. Pois é na esperança que fomos salvos." (Rm 8.22-24). E esta esperança atinge a todos os seres humanos, o aymara David sustenta que o Bem Viver significa "recuperar a vivência dos nossos povos, recuperar a Cultura da Vida e recuperar nossa vida em completa harmonia e respeito mútuo com a mãe natureza, com a Pachamama, onde tudo é vida, onde todos somos uywas, criados da natureza e do cosmos".
O Papa Francisco nos desafia: "Jesus não ressuscitou em vão. Não fiquemos à margem desta marcha da esperança viva!" (EG 278).

(Mensagem de Páscoa/2014 de  Pe. Luis Ceppi)