Os evangelhos não são
biografia de Jesus. Quando foram escritos, não tinham a intenção de
narrar nos detalhes o que se passou com o Nazareno. Com certo grau de
humor, costumamos dizer o seguinte: se quisermos saber direitinho como
foi a vida de Jesus, teremos que esperar nossa ressurreição e perguntar a
ele. Mas é possível que a pergunta não faça mais sentido. Agora, se
desejamos conhecer a experiência que as primeiras comunidades fizeram à
luz do que Jesus disse e fez, aí sim podemos ler os evangelhos. E como
as comunidades eram diferentes entre si, é normal que um mesmo fato a
respeito da vida de Jesus tenha sido registrado de forma diferente por
cada comunidade.
Para nosso olhar de fé,
sabemos que a inspiração divina permitiu essa multiplicidade de relatos
exatamente para que pudéssemos seguir aprendendo que as diferenças nos
enriquecem e nos complementam. Se assim não fosse apenas um evangelho
teria sido suficiente.
As diferenças entre os
evangelhos, portanto, são fruto em primeiro lugar da vontade divina. Mas
também de outras condições. Vejamos algumas.
1. Diferentes maneiras de se contar um mesmo fato
Em sua vida pública,
Jesus constituiu um movimento itinerante, formado de mulheres e homens
(veja Lc 8,1-3) e andou por cidades e povoados anunciando o Reino,
curando as pessoas e propondo um jeito novo de viver. As coisas que
disse e fez não foram anotadas de imediato, foram gravadas na mente e no
coração das pessoas, que passaram a contar para seus filhos e filhas,
na catequese, nas celebrações, na vida das primeiras comunidades. A isso
nós chamamos de tradição oral. Somente mais tarde teve início o
processo de redação dos textos, incialmente em forma de pequenas
coleções (ditos de Jesus, relatos da paixão, coleção de parábolas,
coleção de milagres etc). Ora, é evidente que um mesmo fato ou uma fala
que tivessem um núcleo comum adquirissem “caminhos” e tradições
diferentes na medida em que eram transmitidos “de boca em boca” por
diferentes grupos. Na Bíblia também funciona o famoso “quem conta um
conto aumenta um ponto”.
Esta é uma das razões
porque um relato difere do outro (confira, a título de curiosidade, o
relato do episódio de Jesus caminhando sobre as águas na versão de Mc
6,45-52 e na versão de Jo 6,16-21; se quiser, confira também com Mt
14,22-33). Veja também como a oração do Pai Nosso é diferente em Lc
11,1-4 e em Mt 6,9-13.
2. Épocas e contextos diferentes
Tomemos o seguinte
exemplo: por defender a floresta e o povo empobrecido da Amazônia,
contrariando os interesses das elites e do capital internacional, Chico
Mendes foi assassinado em 22 de 1988, em Xapuri, no Acre. Seu testemunho
repercute até hoje. Imaginemos o quanto seriam diferentes as histórias
de sua vida se escritas nos anos que sucederem sua morte por gente ainda
sofrendo ameaças, das histórias contadas por seus familiares e escritas
por um neto seu que não o conheceu pessoalmente, 30 anos depois, já
vivendo no Rio de Janeiro. Bem diferente seria também uma versão escrita
por uma pessoa de algum país europeu que apenas escutou relatos orais. É
impossível que a situação de quem escreve não se reflita no texto.
O mesmo aconteceu com
os evangelhos. Ao escreverem os textos, as comunidades também foram
influenciadas pelo contexto em que viviam. Por volta do ano 70, época
da destruição de Jerusalém pelos romanos, deve ter surgido o evangelho
de Marcos, o primeiro dos quatro. Em várias passagens texto de Marcos é
bastante marcado pelo silêncio e pelo medo. Em Marcos, Jesus morre em
situação de abandono (compare Mc 15,33-39 com Jo 19,28-30). É como se a
comunidade cristã, enfrentando a guerra e o massacre, estivesse
repetindo o salmo: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste! (Sl
21,2). Cerca de 30 anos mais tarde, quando a comunidade de Joao relata o
mesmo fato, já quer destacar um Jesus senhor da história e vencedor da
morte, em condições de ele mesmo entregar o seu espírito, dizendo que
tudo está consumado (Jo 19,30). Diferença de contextos.
3. Destinatários diferentes
Nos
dias de hoje os evangelhos se destinam às nossas comunidades de fé. Mas
à época em que foram escritos, tiveram destinatários diferentes. O
evangelho de Mateus foi escrito para comunidades judaico-cristãs. É
comum que acentue aspectos importantes para o judaísmo, como, por
exemplo, o pleno cumprimento da lei (Mt 5,17-18). Enquanto em João o
próprio Jesus viaja pela Samaria com seus discípulos (Jo 4), em Mateus
ele diz que os discípulos não devem entrar em terras de samaritanos (Mt
10,5). O evangelho de Lucas tem como destinatárias as comunidades
cristãs do mundo greco-romano, menos presas às tradições judaicas. O
texto de Mt 10,5 não caberia no evangelho de Lucas.
4. Diferentes acentos teológicos
No essencial os
evangelhos coincidem: Deus envia se filho ao mundo, ele forma um grupo
de seguidoras/es e vive servindo os pobres; sua forma de agir acaba
desagradando as autoridades judaicas e romanas e por esse motivo é
assassinado na cruz; mas ressuscita e as primeiras anunciadoras do novo
são as mulheres. Esse fio comum perpassa os quatro relatos: Marcos,
Mateus, Lucas e João.
Entretanto, cada
evangelho tem sua especificidade teológica. Marcos apresenta Jesus como
um curador da vida, alguém que passa a maior parte do tempo curando as
pessoas e expulsando demônios. Mateus, por sua vez, insiste nos longos
discursos de Jesus, apresentando-o como um rabino, um mestre da justiça.
A dimensão do perdão e da salvação universal e mais destacada em Lucas
do que em Mateus e Marcos. Para João, Jesus é o verbo que sempre
existiu, mas ao se encarnar, ensina-nos a viver um discipulado de
iguais.
Outro exemplo: na
genealogia de Mateus, Jesus é descendente de Abraão (Mt 1,2). Como
Abraão é pai do povo de Israel, Jesus é, portanto, um bom judeu. Já em
Lucas, Jesus não é descendente apenas de Abraão, mas de Adão (Lc 3,38).
Em sua visão mais universalista, Lucas apresenta Jesus não como filho do
povo judeu, mas de toda a humanidade.
5. Uso diferente de textos do Primeiro Testamento
Dado
o seu interesse teológico diferente ou mesmo a diferente tradição que
preservou o fato, as comunidades também recorrem a diferentes textos que
teriam sido ditos por Jesus em momentos específicos. No episódio da
expulsão dos vendilhões do templo, de acordo com Marcos, Jesus teria
dito: Minha casa será chamada casa de oração para todos os povos, mas vocês fizeram dela um covil de ladrões. Já de acordo com o texto de João, as palavras de Jesus teriam sido outras: Não façam da casa de meu pai uma casa de comércio.
Na verdade, enquanto o texto de Marcos recorre a Is 56,7 e a Jr 711,
João faz uso de Zc 14,21. Ainda conforme João, os discípulos teriam se
lembrado do Sl 69,10: O zelo por tua casa me devovará.
Outro exemplo é a última frase que Jesus teria dito na cruz, antes da morte. Enquanto Marcos cita o Salmo 22,2 (Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste!), Lucas cita o Salmo 31,6: Em tuas mãos entrego o meu espírito!
No
relato da infância de Lucas, depois de nascer, Jesus volta de Jerusalém
para a Galileia, não teria ido morar no Egito (cf Lc 2,39-40). Em
Mateus, como Jesus e comparado a Moisés, ele vai morar no Egito, é
perseguido por um novo faraó (Herodes), tem a ajuda dos magos (como
Moisés teve das parteiras) e proclama, no monte a nova Lei, as
Bem-aventuranças (Mt 5.1-12). Trata-se, na versão de Mateus de uma
releitura do êxodo, como Oseias já havia feito: Do Egito chamei o meu filho (Os 11,2).
6. Um exercício prático
Tomemos o relato das
mulheres indo ao túmulo na madrugada da ressurreição, presente nos
quatro evangelhos: Mc 16,1-8; Mt 28,1-10; Lc 24,1-11 e Jo 20,1-18.
Muitas diferenças podem ser observadas entre os relatos. Propomos aqui
que identifiquemos apenas algumas, com base na resposta às seguintes
perguntas: a) quem são as mulheres que vão ao túmulo na madrugada da
ressurreição? Quem está lá para avisar as mulheres que Jesus está vivo
ou para dirigir-lhes alguma palavra? Qual a reação das mulheres?
Comecemos pela segunda
pergunta: em Marcos, encontramos um jovem de branco. A versão de Mateus
se inspira em Marcos, mas no lugar do jovem aparece um anjo. Lucas
também se inspira em Marcos, mas fala de dois homens com vestes
resplandecentes. Tanto em Mateus como em Lucas funcionou o “quem conta
um conto aumenta um ponto”. João menciona dois anjos, possivelmente por
fazer referência ao novo jardim não manchado pela morte (Jo 19,41). Se
no antigo jardim Deus colocou os querubins para impedir que o ser humano
chegasse à árvore da vida (Gn 3,24), em Jo 20,12-13 os anjos são os
primeiros a confortar a mulher, com a pergunta carinhosa depois repetida
por Jesus: Por que choras?
Observemos a diferença quanto à reação das mulheres. Em Marcos, elas fogem em silêncio: não contaram nada a ninguém porque tinham medo
(Mc 16,8). Já vimos que o contexto em que se escreveu o evangelho de
Marcos é marcado pelo medo da perseguição romana. Nos demais textos,
elas contam aos discípulos. O medo ainda permanece, mas elas contam. O
texto de Mateus acrescenta que apesar do medo, elas estavam alegres (Mt
28,8). Sabemos que o texto de Mateus foi escrito cerca de 15 a 20 anos
depois do texto de Marcos. As comunidades ainda experimentavam o medo,
mas eram capazes de anunciar com mais alegria a ressurreição.
Em relação à primeira
pergunta, notemos que o nome de Maria Madalena está em todos os textos, o
que nos permite concluir que ela foi a grande apóstola da ressurreição.
Mas não há coincidência em relação aos nomes das demais mulheres. Por
que? É muito possível que as comunidades tenham se recordado de mulheres
que foram lideranças marcantes à sua própria tradição. Ou seja, para a
comunidade de Marcos, além de Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e
Salomé ficaram na memória da comunidade. Já de acordo com Lucas, o nome
de Joana foi mais mencionado e ficou gravado (Lucas fala também de
outras mulheres).
No caso de João, Maria
Madalena vai só ao túmulo. E a narrativa tem um sentido bastante
especial, baseando-se em dois textos do Primeiro Testamento. Por um
lado, o texto refaz a trajetória da amada em busca do seu amado,
conforme os belos poemas do Cântico dos Cânticos: Encontraram-me os
guardas que rondavam a cidade: vocês viram o amado da minha vida?
Passando por eles, contudo, encontrei o amado da minha vida. Agarrei-o e
não vou soltá-lo (Ct 3,3-4). Por outro lado, Jo 20,1-18
apresenta-nos uma releitura da criação: trata-se de uma nova semana, um
novo jardim e uma nova humanidade, representada em Jesus e em Maria
Madalena. Relato de um encontro que transforma e que permitiria a ela
dizer, quase parafraseando Gabriel García Marques: “Gosto de você pelo que você é, mas também pelo que sou quando estou com você!”
(Texto de autoria de Edmilson Schinelo)
(Texto de autoria de Edmilson Schinelo)

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