sábado, 10 de março de 2012

Mulheres, eternas matemáticas!


O fato histórico nos diz da resistência e martírio de um grupo de trabalhadoras norte americanas, nasceu o dia internacional da mulher. Encontramos pessoas que defendem e argumentam que todo dia é o dia da mulher... ora, isso não deixa de ser uma verdade, mas permitam hoje celebrar e comemorar o Dia Internacional da Mulher.
Canções, homenagens, placas, festas,  manifestações e protestos vão marcar este dia.
Do muito do que já foi escrito, o que ainda posso dizer? Valha-me Deus! 

Já sei! Vou compartilhar com você,  como as mulheres são eternas matemáticas e  criar uma “metáfora” de uma grande caravana, tal qual a “Marcha das Margaridas”. Esta caravana vai ter seu ponto de encontro a Praça da Sé em São Paulo, rumo a Aparecida.
Portanto, imaginemos elas todas a caminho... das cinco grandes regiões do nosso país...
Caminhar...Caminhar... isso não é novidade para estas mulheres... elas caminham para o trabalho, caminham dentro de casa, caminham para comunidade... não é por acaso que a palavra “caminhada” tornou-se uma palavra da eclesiologia latino-americana.
Neste caminhar o que levam em comum?
Levam consigo a arte de SOMAR. Aprenderam a somar os recursos que têm, somar os conhecimentos,  mas sobretudo somar forças! Sabem que isoladas tornam-se fracas!
Tornaram-se também espertas na arte de subtrair... ou seja, diminuir as distâncias articulando a luta comum, diminuir a violência contra mulher na aplicação da lei Maria da Penha, diminuir a tristeza, diminuir o tempo no trabalho, para ter tempo para si e para família...
Ah! Mas estas mulheres são inteligentes quando se trata de multiplicar... elas multiplicam as amizades, elas multiplicam os alimentos, inventam uma comida aqui, com um recheio lá... às vezes até dizem: “é pra render”... multiplicam conhecimentos, multiplicam sonhos e desejos!
Ah! Mas nesta matemática da vida como esquecer que elas nos ensinam por excelência a arte de dividir: dividem o pouco que tem... e ainda fazem cantando: “o pouco com Deus é muito, o muito sem Deus é nada, o pouco que repartimos é fartura abençoada”... dividem seus problemas em comum na reunião da comunidade ou do grupo de mulheres, dividem seu tempo entre família, trabalho e comunidade...

E nesta grande caravana, lá vem elas, carregam características físicas próprias: seios que amamentam, quadris diferenciados, leveza no caminhar... e são maioria no país...quase 4 milhões a mais do que os homens... elas vem alegres, sorridentes, firmes... elas vem “caminhando e cantando e seguindo a canção”.
Desta forma “imaginária” mas real, gostaria de comemorar o Dia Internacional da Mulher, nesta grande  caminhada  ou caravana...

Elas partem do Rio Grande do Sul, juntam-se às mulheres de Santa Catarina, mais para frente juntam-se ao grupo do Paraná... formam a caravana das mulheres do sul: rostos diferenciados, marca da imigração, sotaques e histórias de quem aprendeu a lutar e resistir... o chimarrão vai passando de mão em mão e chegam à Praça da Sé em São Paulo...
Mas eis que vem do Sudeste a marcha das mulheres – saíram do Espírito Santo, passaram pelas Minas Gerais, dirigiram-se ao Rio de Janeiro e juntaram-se ao grupo de São Paulo... foi uma festa só! Tinha Congada, escola de samba, cafezinho para acolher e rosto migrante no olhar de cada mulher!

Mas do cerrado e dos pantanais veio uma caravana tão linda – traços bem definidos que quem convive nas nascentes das águas. Trazem o rosto da mulher indígena... são elas, mulheres do Centro-oeste que chegam  até a Praça da Sé em São Paulo...
Com muita festa e colorido... na dança do tambor de crioula, do bumba-meu-boi, frevos e afoxés... chegaram as mulheres que herdaram de Maria Bonita a resistência... São as mulheres do Nordeste. Presentes os nove estados. Entraram na Praça da Sé cantando assim: “Viva, viva, a mulher desta nação/ Que vai gerando no ventre/A nova semente da libertação!/E vem trazendo no sangue/A semente nova da revolução!/Sertaneja, manhã cedo,/ vai ela sem medo, já vai trabalhar./Trabalho duro, suado, sempre conquistado a duro penar./Sai de casa, come nada,/e sem deixar nada pros filhos comer./Volta trazendo um pouquinho,/o ganho mesquinho não dá pra viver”.

Por fim, juntou-se a esta grande coluna, as mulheres do Norte. Cheiro da floresta e dos rios! Mulheres energizadas pela mãe natureza. Mulheres que gritam em defesa da Amazônia... todas elas entraram com camisetas e a foto da Irmã Dorothy... e foram muito aplaudidas...

Depois de todas juntas... abriram as mãos e mostraram o quanto traziam... Naquele momento não importava mais que onde cada uma era – mas percebia-se quanta coisa em comum... ali valeu de novo foi a matemática... dividiu-se abraços e carinhos... mas também perceberam como é necessário multiplicar as informações, diminuir as “mãos calejadas e as cicatrizes da violência”...
E pegaram a estrada, tomaram a via Dutra e foram terminar esta marcha em Aparecida, diante de um grande símbolo nacional... Como no dia a dia de tantas mulheres, assim foi aquela caminhada: pés doloridos, suor, cansaço, cantos, partilha e  gritos de guerra!


Alguém com voz firme
 puxou o canto:

“Que venha essa nova mulher de dentro de mim,
Com olhos felinos felizes e mãos de cetim
E venha sem medo das sombras, que rondam o meu coração,
E ponha nos sonhos dos homens
A sede voraz, da paixão
Que venha de dentro de mim, ou de onde vier,
Com toda malícia e segredos que eu não souber
Que tenha o cio das onças e lute com todas as forças,
Conquiste o direito de ser uma nova mulher”

Continuaram a caminhar... um grupo de mulheres de uma das cidades por onde passava a marcha esperava com água, abraços e doces... sinal da sensibilidade e ternura da mulher.

Mais à frente alguém “provocou” o grupo. Foi um protesto com faixas que diziam: “vai pra cozinha, lugar de mulher é na cama e mesa... coisas deste tipo.
Todas num só coro seguiram seu caminho e  responderam apenas com um canto:
“Sexo frágil
Não foge à luta
E nem só de cama
Vive a mulher...
Por isso não provoque
É Cor de Rosa Choque”

Enfim, chegaram todas na esplanada do santuário – quem estava ali: a mulher brasileira! Por isso com o samba na ponta do pé cantaram:
“Agora chegou a vez, vou cantar/Mulher brasileira em primeiro lugar
Agora chegou a vez, vou cantar/Mulher brasileira em primeiro lugar
Norte a sul do meu Brasil/Caminha sambando quem não viu/Mulher de verdade, sim, senhor
Mulher brasileira é feita de amor”

E na esplanada com presença de tantas mulheres, eis que estava ali – tão pequenina...no meio daquela grande multidão... quase que não se via a imagem... pequena, negra, coberta de adornos que expressam nossa ternura... era a Mãe Aparecida, a Senhora Negra! Maria de Nazaré... igual a tantas Marias... Das Minas Gerais alguém puxou o canto: “Senhora Negra, iá querida, soberana quilombola, mãe de Deus Aparecida” e formou-se um só coro!

Neste caminhar estava também a vida religiosa feminina. Mas elas não formaram uma “ala a parte” – estavam também como “mulheres” neste grande caminhar! Era bonito de ver: algumas com os hábitos próprios de cada congregação outras vestidas com roupas comuns...mas estavam presentes! Na diversidade dos slogans e faixas estava a CRB: “Mulheres consagradas – de olhos fixos em Jesus”!

O ofertório foi lindo – passando por cada região quantas coisas foram partilhadas: da economia solidária à medicina alternativa, do grito conta o tráfico de seres humanos ao extermínio da juventude... Da Pastoral da Criança ou Clube de Mães... foi uma grande aula de matemática – de quem aprendeu na vida a somar, diminuir, dividir e multiplicar...

Uma mulher com traços bem simples chegou bem perto da imagem de Nossa Senhora Aparecida e  cantou: “Me disseram porém, que eu viesse aqui, pra pedir em romaria prece, paz nos desaventos, como eu não sei rezar, só queria mostrar meu olhar, meu olhar, meu olhar”...

E fez-se um grande silêncio... antes porém do retorno, alguém chegou bem perto da imagem de Nossa Senhora Aparecida, tomou a Palavra de Deus, abriu no evangelho de São João 2,1-11 e proclamou bem alto:

“Três dias depois houve um casamento em Canaã da  Galiléia.  A mãe de Jesus estava presente.
Também Jesus e seus discípulos tinham sido convidados para o casamento.
Como o vinho veio a faltar, a mãe de Jesus lhe disse: "Eles não têm mais vinho".
Jesus respondeu-lhe: "Mulher, por que dizes isto a mim? Minha hora ainda não chegou".
Sua mãe disse aos que estavam servindo: "Fazei o que ele vos disser".

E todas voltaram repetindo silenciosamente estas palavras: “Fazei tudo o que ele disser” , “Fazei tudo o que ele disser”, “Fazei tudo o que ele disser” “Fazei tudo o que ele disser”!

Parabéns mulher brasileira pelo seu dia! Como homem hoje também canto assim:

“Ser um homem feminino
Não fere o meu lado masculino
Se Deus é menina e menino
Sou Masculino e Feminino...

Edegard Silva Júnior, ms 
Presidente da Conferência dos Religiosos do Brasil Regional Salvador (Bahia/Sergipe)


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